ARTIGO

O debate da Graciosa

Só compareceram seis dos oito cabeças-de-lista que concorrem às eleições regionais pelo círculo da Graciosa. A procissão ainda vai pouco mais além do adro e já se registaram cinco ausências: no Corvo do BE; nas Flores da CDU e do PAN e na Graciosa da CDU e do MPT. Um mau sintoma!

A dificuldade de marcar presença deriva das limitações que a máquina socialista impõe à liberdade dos cidadãos, isso é óbvio e foi referido ontem por mais do que um candidato. No entanto, também não se pode desligar esta indisponibilidade de outros fatores, entre os quais estará uma geral desmotivação, repulsa nalguns casos, de grande número de pessoas pelo exercício da cidadania na sua componente mais puramente política.

Este artigo não é para escalpelizar o tema, cujas causas profundas merecem reflexão cuidada, mas gostaria de dizer que compreendo que os partidos mais pequenos tenham que fazer das tripas coração para “arranjar” quem se disponha a dar a cara por eles, ainda por cima ir à televisão, tendo que recorrer, por vezes, a pessoas não residentes no círculo eleitoral por que concorrem.

Ora, esta circunstância transporta-me para outra dificuldade.

Tem esta série de escritos o propósito de fazer uma análise, crítica, dos debates, na qual incluo as minhas apreciações sobre a RTP-Açores e sobre o meu colega e amigo Herberto Gomes, que está nos galhos do touro.

Sem prescindir da racionalidade – e isenção também, apesar de ser um texto de opinião – que uma abordagem séria impõe e a amizade ou o “corporativismo” poderiam estorvar, reconheço a extrema dificuldade de moderar os debates em apreço.

Uma forma de dar a esta hora televisiva maior eficácia e por consequência utilidade informativa seria adequar a duração do programa ao número de participantes e ao Herberto dar-se-lhe-ia maior possibilidade de movimento dentro da camisa de forças em que se encontra.

De qualquer maneira, a gestão dos tempos de cada candidato exige do moderador mais pulso, para, no mínimo, evitar a perda da face, como ontem ia acontecendo.

Há muitos anos entrevistei o Joaquim Letria na Horta, no Hotel Fayal, para o semanário Incentivo e ele disse-me que o pior que pode acontecer num debate é não existir autoridade em quem modera.

Mas eu sei, por experiência própria, que um bom entrevistador só o consegue ser se o entrevistado for melhor do que ele, o que se aplica a estes debates, em sentido contrário, ou seja, conheço perfeitamente a sensação de, numa entrevista, fazer as perguntas e quase ter que dar as repostas também.

Foi o caso do cabeça-de-lista pela Graciosa do CDS, Fernando Melo, a quem tenho que atribuir o pior desempenho de ontem à noite.

Em oposição a esta classificação coloco a “bloquista” Brites Araújo no topo da tabela, porém com laivos de demagogia no seu discurso – não pode acusar os adversários de defenderem a sua dama, quando ela também tem, obviamente, a mesma intenção. Todavia, na sua intervenção inicial refrescou o estafado ambiente político deste tipo de debates, com ares de oratória e fez uma declaração assertiva sobre a inquietante questão do despovoamento (despovoamento é diferente de desertificação, principalmente aqui nos Açores!)

Luís Picanço (PPM) e Roberto Pires, responsável pela estreia do Chega nestas andanças de debates televisivos eleitorais nos Açores, equivaleram-se: este, pragmático; aquele, tendencialmente idealista, quase que exorcizando a obra material em favor da exaltação da “pessoa humana” como único fim da gestão da coisa pública. Até agora foi o único candidato a sublinhar uma nota ideológica.

Roberto Pires, quase telegráfico, foi incisivo, à moda do Chega. Exemplo que retive: “Se não fosse a pandemia não havia a linha branca” (ligação da Atlântcoline que contempla a Graciosa).

Atrevo-me a dizer que no debate da Graciosa os intervenientes se dividiram em duas classes: os candidatos do povo e os candidatos da elite política, sem que com tal pretenda diminuir os primeiros ou atribuir-lhes qualquer exclusivo de genuinidade, nem alcandorar a qualquer patamar os segundos ou não lhes reconhecer a massa crítica que sejam capazes de possuir.

De facto, Bruto da Costa (PSD), deputado há 12 anos e José Ávila (PS), há 16, são um caso à parte neste contexto e tendem a afunilar o confronto como se se tratasse de um jogo de ténis, um contra um.

Ávila agarrou-se aos números e estatísticas, cedendo, “en passant”, à indispensável vénia ao seu líder e acusando o PSD de ter “fechado” várias coisas na Graciosa. A resposta, curiosamente, veio de Brites Araújo, que lhe lembrou que o PS já tinha tido tempo de as abrir, podendo ter seguido o exemplo da Cooperativa Vitivinícula do Pico, moderna e profissionalmente organizada, tarefa adequada aos jovens graciosenses para dinamizar a congénere da sua ilha, pois, disse, no caso do Pico foi feito um excelente aproveitamente dos recursos proporcionados pelas novas tecnologias.

O candidato do PSD foi à televisão empenhado numa postura bem-falante, assente num discurso vistoso, que procurou sustentar com as iniciativas parlamentares que tomou nos seus mandatos.

A ronda final é o momento mais desinteressante dos debates, embora na Graciosa tenha tido a particularidade de evidenciar quão por vezes se tornam ridículas certas formas de afirmação da igualdade de género.

Bruto da Costa, no fim, dirigiu-se aos graciosenses tratando-os, cordial e apropriadamente, como “caras e caros”. Já Brites Araújo preferiu a fórmula “graciosenses e graciosenses”, mandando às malvas a Gramática da Língua Portuguesa.

Quanto a mim, por agora é tudo, faialenses e faialenses!

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2 thoughts on “O debate da Graciosa

  1. Brites Araújo diz:

    Caro jornalista,
    permita-me felicitá-lo pela iniciativa de analisar críticamente os debates às Legislativas Regionais 2020.
    Deixe-me também dizer-lhe que, no geral, me parece ter cumprido os seus propósitos de racionalidade e de isenção. Só abona em favor da classe.

    Quanto à apreciação da minha nota demagógica, lembro-lhe que todos (e todas, já agora) os/as participantes nestes debates defendem uma dama. O modo como o fazem deverá, pois, ser avaliado em grau. Neste pressuposto, tem, obviamente, toda a legitimidade para fazer a sua apreciação e eu registei a parte que me tocou.

    A preocupação com as questões de género, de facto, geram situações que podem ser risíveis. O meu “graciosenses e graciosenses” foi absolutamente ridículo e eu apercebi-me disso ainda no fim da última sílaba do segundo “graciosenses”.

    Mas, disse, está dito…

    Saudações

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    • Senhora Brites Araújo, muito obrigado pelas suas observações.
      Registo e concordo que o modo como cada qual defende a sua dama deve ser avaliado em grau.
      Saúdo a forma democrática como encarou as minhas apreciações, atitude não muito comum entre a classe política quando escrutinada pelos jornalistas. Acredite que sei do que falo, pois já levo alguns anos disto.
      Esta série de análises traduz a minha opinião (não é um texto de informação), aliás, criei este blogue, precisamente, para me exprimir livremente. Mas sendo uma opinião não me deve impedir, julgo eu, de procurar a equisdistância e a imparcialidade, ou, até mais do que isso, o rigor, embora fique aberta a porta para verter as minhas ideias neste espaço, quando o considerar oportuno.
      Por fim, agradeço a oportunidade que me deu de corrigir um erro ortográfico inadmissível para quem faz das palavras o seu trabalho. Tinha escrito “graciosences”!
      Eu apercebi-me de que quando repetiu a palavra “graciosenses” no debate, se tivesse tido tempo e circunstância, tê-lo-ia evitado. Mais sorte tive eu, pois, apesar do título do blogue ser “o que escrevi, escrevi”, afinal, pude fazer a emenda.
      Saudações para si também.

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