O debate de São Jorge

Fiquei com a ideia que este foi o debate mais equilibrado, do ponto de vista do desempenho dos candidatos, depois de assistir aos do Corvo, Flores, Graciosa e Santa Maria.

Provenientes de ilhas com população tão reduzida – o que tem implicações de diverso tipo – é natural que os escolhidos para encabeçar as listas traduzam a natural dificuldade de encontrar pessoas com o perfil mais adequado para a função.

O que é que eu quero dizer com isto? Que o universo de recrutamento é pequeno e ainda por cima condicionado pela pressão do poder instituído sobre a liberdade dos cidadãos, o que leva a que “os melhores” nem sempre estejam disponíveis. É como no desporto: quanto maior for o plantel mais opções tem o treinador.

Cada candidato transporta a sua idiossincrasia, o que resulta, naturalmente, numa diversidade de desempenhos. Ora isto, associado ao curto campo de recrutamento, leva a que aumente a dissemelhança das candaidturas em presença.

Vou dar um exemplo para me fazer entender bem: os candidatos que já são deputados trazem consigo, normalmente, um traquejo que lhes permite, pelo menos, terem vantagens discursivas.

Observa-se facilmente este pormenor no momento em que o moderador pede para terminarem a intervenção e eles prolongam-na um pouco abusivamene. É uma prática a que assistimos ordinariamente quando as televisões transmitem debates parlamentares. Uma ratice!

Já os candidatos sem experiência parlamentar, mais ingénuos neste aspeto, procuram cumprir com escrúpulo o tempo que lhes está atribuído. Há exceções, obviamente, em ambos os casos e isso aconteceu no debate de São Jorge.

Todo este arrazoado visa explicar que achei – repito – o debate equilibrado, apesar de todas as condicionantes de que acabo de falar.

Estes jorgenses deram uma imagem positiva da sua ilha apresentando boas ideias, algumas delas comuns a várias candidatutas, como é natural e defendendo-as cada qual à sua maneira, desde o discreto Paulo Fontes (BE) ao espalhafatoso Adroaldo Mendonça (Chega), passando pelo cordial Paulo Silveira (PSD), pela urbana Isabel Teixeira (PS), pela desenvolta Catarina Cabeceiras (CDS), pelo pragmático Pedro Pessanha (CDU) ou pelo terra-a-terra Valdemar Furtado (PPM).

Acanhado durante hora e meia, mas suficientemente claro sobre o que pretendeu dizer, Paulo Fontes revelou, na última intervenção, talvez o melhor faro político da noite. Previu que São Jorge continuará a eleger deputados de três partidos e que está na hora dos calhetenses usarem o seu voto na eleição de um deles oriundo da Calheta em vez de contribuírem para a eleição exclusivamente de velenses.

O bloquista foi também aquele avançou com a proposta mais arrojada, defendendo claramente a amplicação do porto do Topo, atualmente em obras e a criação de condições para movimentação de carga “roll-on/roll-off”. Uma ideia para potenciar o “Triângulo do Norte” (São Jorge, Graciosa, Terceira).

O debate serviu também para se perceber que a ilha vive o dilema de dois amores, pois ambos os Triângulos (o de São Jorge, Pico, Faial, a par do do Norte) atraem simpatias, principalmente quando a discussão se centra nos transportes marítimos.

Uma das duas figuras políticas mais relevantes, a par com a deputada Catarina Cabeceiras, presente neste debate, Isabel Teixeira, ex-presidente e atual vice-presidente do Conselho de Ilha, foi a primeira candidata do PS, neste caso independente, que, nos cinco debates já realizados, mais se assemelhou aos representantes dos partidos da oposição. Principalmente na primeira vez que falou apontou uma série de necessidades da ilha de São Jorge de tal forma que, quem ligasse a televisão naquele momento, ficaria com a impressão que não se candidatava pelo Partido Socialista. Depois, viu-se na necessidade de justificar alguas coisas, quando o Governo foi atacado.

Um aspeto que marcou o programa foi o pragmatismo de Pedro Pessanha. A dado passo, depois de já ter escutado várias intervenções, atirou: “Concordo com tudo o que foi dito. Faça-se!”

O candidato do Chega, tal como os do seu partido que o antecederam noutros debates, mostrou que o estilo de André Ventura está a fazer escola.

Ainda ontem ouvi uma jornalista do Expresso, no programa “Expresso da Meia-Noite”, dizer que todas as frases que Ventura profere dão títulos de notícias. E Adroaldo Mendonça (a começar pela rariade do seu nome próprio) não se fez rogado a este ropósito: “Falta peso político a São Jorge”; “Temos políticos de plástico, que se moldam ao sistema e gordos, que só se lembram dos amigos”; “Se eu fosse do Topo servia uma refeição fria ao Governo”; “Vasco Codeiro veio mais vezes a São Jorge nos últimos tempo do que durante todo o mandato”; “Parece que quem trabalha para o Governo em São Jorge está aqui a passar férias”; “São Jorge vive submisso”; “A COVID-19 não é só sueras e gravatas”; “A vida de um deputado é só um ano antes das eleições”, etc.

Adroaldo Mendonça, há quatro anos era um acérrimo defensor do PS, lembrou-lhe Catarina Cabeceiras num pequeno despique que tiveram após este veterano autarca ter pisado a deputada.

O monárquico Valdemar Furtado colocou o acento tónico das suas intervenções na necessidade de os deputados passarem mais tempo em São Jorge para poderem resolver os problemas da ilha de imediato e não em discussões na Assembleia. “Chamem-me a mim se for preciso”, rematou, numa nota de autenticidade e voluntarismo própria da índole açoriana.

O candidato que veste a camisola do partido que já foi rei e senhor em São Jorge, obtendo a totalidade dos mandatos, Paulo Silveira, lembrou que os 24 anos de socialismo nos Açores corresponderam à tendência despovoadora da ilha, isentando de culpa os jorgenses que chamou de gente empreendedora, mesmos nas circunstâncias difíceis em que tem vivido.

A centrista Catarina Cabeceiras, que pertence ao partido que elegeu o saudoso professor Rogério Contente, um dos primeiros a contrariar a onda laranja na ilha e na Região no início da era democrática, quando Isabel Teixeira lhe pôs uma pedra no sapato dizendo que agora critica o Governo, mas que o CDS tem votado a favor ou se abstido na votação dos planos e orçamentos regionais, sacudiu a água para fora do capote lamentando que o PS aceitou algumas propostas da oposição, mas depois não as cumpriu.

Disse, por outro lado, que os problemas de São Jorge foram levados ao parlamento por sua iniciativa e que ali defendeu autenticamente os interesses da ilha que a elegeu.

O candidato da CDU, na sua última fala, resumiu, de forma feliz e interpeladora, o que está em causa, verdadeiramente, nesta eleição: Durante quatro anos responsabilizámos o Governo, agora é a ocasião de os eleitores serem responsabilizados.

O PAN não participou no debate.

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