O debate do Faial

Do ponto de vista da moderação o debate do Faial foi o mais bem conseguido. Em vez de endossar aos candidatos questões genéricas, como antes aconteceu, o jornalista colocou-lhes perguntas concretas, de acordo com o contexto político em que se apresentam. Na minha opinião assim é que deve ser.

Não vou dizer que o moderador aprendeu com os primeiros debates, pois o que não falta a Herberto Gomes é a experiência de uma carreira de três décadas, mas é compreensível que a análise crítica que, naturalmente, vai fazendo a cada dia que passa lhe permita retificar certos aspetos.

Poucos minutos depois do programa terminar um amigo meu fez-me uma pergunta pelo “Messenger”: O que é que achaste?

Respondi de imediato, à boa maneira das redes sociais, ainda sem tempo para matutar: Muito repetitivo em relação aos assuntos de sempre, como o porto, aeroporto, variante. Faltou um golpe de asa, uma afirmação de liderança pelo Faial. Gostei do “nervo” da Paula Decq Mota e a Aurora desiludiu-me. O Rui foi igual a si próprio, o Morais devia ter ficado em casa e a Ana Luís e o Ferreira não me surpreenderam.

Quando me sentei ao computador nesta manhã soalheira de domingo fui rever a mensagem enviada e decidi desenvolvê-la porque acho que consegui resumir naquelas curtas palavras a minha visão do debate.

Quatro cabeças-de-lista situaram-se em primeiro plano: Ana Luís (PS), Carlos Ferreira (PSD), Paula Decq Mota (CDU) e Rui Martins (CDS). Aurora Ribeiro (BE) ficou-se por um patamar mais modesto e Fernando Morais (Chega) não está talhado para a política.

Foi a candidata comunista quem esteve mais perto de alumiar o caminho aos faialenses, que andam há demasiado tempo às apalpadelas.

Não avançou com ideias novas, mas conseguiu, sobre velhos problemas, assumir uma postura de combate político mobilizadora.

Assumiu sem hesitação que o seu objetivo é conseguir a eleição e sem papas na língua denunciou que as decisões sobre o Faial são tomadas em São Miguel.

A farpa entrou direitinha no lugar certo, pois Ana Luís reagiu dizendo que não cede a lutas entre ilhas, deixando, assim, a descoberto as reivindicações próprias de cada uma delas, sem as quais a Autonomia é uma falácia.

A troca de galhardetes dos candidatos do PSD e do PS, sobre o porto, o aeroporto e a variante, com a repetição “ipsis verbis”, de parte a parte, de argumentos e contra-argumentos, levando Aurora Ribeiro a exclamar que “já aborrece”, foi bem aproveitada por Paula Decq Mota, que comparou o novo estudo relativo à baía a um problema de matemática: tudo depende dos dados analisados. E vaticinou: o resultado vai ser o que o PS quer!

Enquanto Paula Decq Mota apresentou a Esquerda como solução para equilibrar a relação de forças políticas no Faial e, desse modo, desbloquear os problemas que persistem, Rui Martins fez o mesmo, mas, obviamente, apontando para o lado oposto e dizendo que, quer os deputados do PS, quer os do PSD, não são a solução: os primeiros primam pela submissão, os segundos pela crítica inconsequente.

Rui Martins reclamou para si uma atitude de permanente propositura, palavra que repetiu até à exaustão, tentando justificar a utilidade do voto centrista.

Recuou à legislatura iniciada em 2008 para dizer que os socialistas prometeram nessa altura o que não conseguiram fazer na seguinte (2012-2016) e que afinal apresentaram novamente em 2016.

No seu estilo irónico q.b. e falando sobre a Saúde quis demonstrar que várias classes estão contra o Governo, exemplificando com a da enfermagem: talvez só o enfermeiro com estetoscópio que aparece nos cartazes socialistas e o enfermeiro “Tiaguim” é que votam no PS.

Carlos Ferreira e Ana Luís mostraram-se como uma espécie de bloco central no que diz respeito ao estilo e à postura. Falam bem os dois, mas não há quem lhes consiga arrancar um momento de arrebatamento e perderam-se nos mais que batidos e rebatidos e estafados e decorados argumentos sobre o porto e o aeroporto, estradas, iniciativas aprovadas, propostas recusadas, etc.

Sem ter conseguido confirmar a expectativa que a novidade da sua escolha para cabeça-de-lista do BE criou, apesar da experiência profissional na área da comunicação, Aurora Ribeiro destacou-se em certa ocasião do debate ao sugerir um subsídio de 400 euros para os médicos do Hospital da Horta.

É muito raro, em campanha eleitoral, ver-se propostas acompanhadas da respetiva avaliação económica. E nisso a candidata do Bloco marcou pontos. Explicou o seguinte: o salário dos médicos do Hospital da Horta atinge o valor de 2,1 milhões de euros (ME) e são-lhes pagos 2,5 ME em horas extraordinárias. O total de salários com subsídio atingiria 5,5 ME. Se fossem contratados mais médicos não haveria necessidade de horas extraordinárias e, portanto, a coisa ficaria ela por ela relativamente à despesa atual.

Dos círculos eleitorais até agora em dabate o do Faial é o que tem mais concorrentes (9), mas também foi o que registou o maior número de faltas de comparência: do PAN, do MPT e do PPM.

O candidato do Chega, uma carta fora do baralho, consegue ser lembrado só porque propôs a construção de um porto, com guincho, no Norte da ilha do Faial e uma nova aerogare no lado sul da pista de Castelo Branco, onde jogava futebol o Clube Recreio e Fraternidade, que, curiosamente, regressa à competição na presente temporada, mas no campo da Lombega.

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