ARTIGO

O debate de São Miguel

A ausência de Vasco Cordeiro e de José Manuel Bolieiro do debate de São Miguel foi um balde de água fria atirado sobre os telespectadores. Não tenho dúvida de que boa parte dos açorianos estavam interessados em presenciar o comportamento dos dois candidatos que reúnem as maiores possibilidades de desempenharem o cargo de presidente do Governo depois de 25 de outubro de 2020.

Logo nas primeiras intervenções do programa houve quem se encarregasse de pôr em evidência a opção dos líderes do PS e do PSD: É falta de humildade democrática, acusou Paulo Margato, do PPM.

Também não estiveram presentes os cabeças-de-lista por São Miguel do BE e do PCTP-MRPP, mas é óbvio que a abstenção de Cordeiro e Bolieiro se notou mais [VER “EM CIMA DO JOELHO” E “INDIGNAÇÃO“].

Esta série de debates terminou sem que o MPT, que concorre pelos círculos eleitorais da Graciosa, Santa Maria, Faial, Pico e São Miguel (na Terceira a candidatura foi rejeitada), tenha aparecido.

São Miguel e Terceira foram as duas ilhas em que o conjunto dos respetivos candidatos mostrou que ali há massa crítica a valer, o que não deixa de ser natural tendo em conta que são as duas ilhas mais populosas.

Nos restantes círculos eleitorais a “décalage” entre os candidatos mais aptos e os menos bem preparados para a função foi maior.

São Miguel trouxe a surpresa de um cantor que cantou, Mário Fernandes (Aliança), mostrando depois uma interessante acutilância, nomeadamente quando falou e disse, resumindo bem a realidade açórica, que “nove ilhas são nove filhos e nove filhos são nove mundos”.

Ao escutar o representante do MRPP saltou-me na memória o tempo em que o professor Pedro Leite Pacheco se deslocava a pé da cidade ao aeroporto, em Castelo Branco, no Faial, para ir buscar e depois distribuir o jornal do partido.

Continua magro, tenaz, combativo, defensor intrépido do proletariado (“a Autonomia está dependente do trabalho, sem a classe operária a transformar a matéria prima local a Região não é autónoma”). Só o achei com o semblante, carregado na mesma, mais enrugado. Já passaram uns 30 ou 40 anos… Na altura dizia-se: “Aquele homem é filho de pai rico, mas prefere viver assim, com modéstia!”

José Azevedo, em nome do Livre, procurou, ao longo de todas as suas intervenções no debate, explicar que os objetivos sociais não se alcançam pela via da competição e do lucro e defendeu uma ideia inesperada: criação de uma moeda regional, complementar ao Euro, pois o dinheiro é um instrumento social.

O cabeça-de-lista do PAN, Pedro Neves, funcionário político, agarrou-se aos números e, entre outras referências, por exemplo 37% de pobreza nos Açores, chamou a atenção para o facto de os Açores importarem 80% do que consomem e afirmou que a relação dos gastos entre a Pecuária e a Saúde, no período correspondente a uma legislatura, é de € 300 para € 200.

A maior subtileza da noite saiu da boca de Carlos Furtado, representante de um partido (Chega) mais propenso a linguagem direta do que a perspicácias. Mostrou alguma bagagem cultural e olhando para Francisco César disse que o PS estava “iconicamente” representado no debate.

Rui Teixeira (CDU) optou por acentuar os campos em que as forças partidárias se movimentam nos Açores e colou o PS à Direita, lembrando que o partido que suporta o Governo, juntamente com o PSD e, nalguns casos o CDS, têm afinado pelo mesmo diapasão no parlamento nos assuntos emblemáticos para a Esquerda: redução do IVA, acréscimo ao salário mínimo regional, taxas moderadoras e creches gratuitas. E acrescentou, reafirmando o seu posicionamento político: nada substitui a SATA!

Começou e acabou o debate preconizando o fim da maioria absoluta, que “tem sido asfixiante para o diálogo”.

No lugar do cabeça-de-lista do BE por São Miguel apresentou-se Vera Pires. Em reação a uma intervenção de Francisco César (PS) chamou a atenção e insistiu que a pobreza aumentou apesar de o PIB ter crescido.

Deixou um afirmação peremptória: “Todos temos o direito de conhecer o plano de negócios da SATA!” Vera Pires é funcionária da transportadora aérea açoriana há 34 anos.

Não deixou, entretanto, o tema do emprego passar em claro, afirmando que o arquipélago atingiu o número mais baixo de população ativa desde 2013.

A questão da SATA também mereceu especial atenção do candidato centrista (CDS), Nuno Gomes. “Os açorianos têm que saber, se Bruxelas não aceitar as explicações do Governo, o que acontecerá à SATA”. E acrescentou: “Os açorianos têm direito de participação na definição da utilização dos dinheiros da União Europeia”.

O candidato do PPM apresentou duas semelhanças com o deputado mais reguila do parlamento: o nome e a irreverência.

Paulo Margato rematou as suas intervenções com um curioso apelo ao voto: “Se um Paulo incomoda muita gente, dois Paulos incomodam muito mais!”

Também foi um dos que zurziu no Governo com a mesma arma com que o Governo esgrime, as estatísticas, recordando que em quatro anos 15 mil açorianos ficaram à espera de cirurgias. Classificou de inadmissível que o leite seja pago ao produtor a 2 cêntimos, defendendo cortes nos apoios à indústria.

Ironizando, sugeriu que o Prémio Nobel da arte do ilusionismo deveria vir para os Açores, onde foi possível fazer crescer o emprego apesar da pandemia.

O candidato liberal (que ouviu de Mário Fernandes que não há escala para o Liberalismo puro funcionar nos Açores) traçou um quadro negro da sociedade açoriana: as políticas desde 1975 puseram uma canga sobre os cidadãos. E comparou Francisco César (PS) e Pedro Nascimento Cabral (PSD) aos respetivos progenitores, Carlos e Jorge: “Parece que estou a ouvi-los na década de 80”.

Criticou o candidato socialista por se esquecer sempre de falar dos indicadores sociais e económicos negativos (só fala dos positivos) e vincou o traço ideológico da sua candidatura: “O empreendedor carece de liberdade, veja-se para onde vão os açorianos que emigram”.

Concluiu que desde há uma ou duas décadas estamos sempre a fazer as mesmas coisas.

A COVID-19 ocupou parte de leão das intervenções dos dois partidos que até agora têm dominado a cena política regional.

“O PS quer camuflar com a pandemia a sua inaptidão para governar”, acusou Nascimento Cabral, para Francisco César contrapor que “o PS salvou muitas vidas!”

O candidato social-democrata assentou o seu discurso nas propostas que o seu partido tem vindo a apresentar, avisando que o coronavírus “não pode justificar a incompetência”. Por seu turno, o candidato socialista procurou conduzir as atenções para a necessidade de “manter os açorianos seguros” em face da pandemia e que “os resultados estão à vista”.

Num debate deste tipo, em que praticamente não há réplicas, os chamados “soundbites” funcionam bem para atrair a atenção do público-alvo. Nisso, o cantor foi exímio mestre.

Aqui fica meia dúzia de frases de Mário Fernandes, a começar por um tema oportuno, quando as escolas estão a abrir: “Os professores são carne para canhão: o canhão é o sistema de ensino e as balas são os nossos filhos”; “Algum político diz: peço desculpa, enganei-me?”; “Nos Açores parece que vivemos segundo o tratados das Tordesilhas: PS e PSD repartem o poder”; “A SATA foi posta a fazer tudo o que não devia fazer e não lhe pagaram”; “A diferença entre uma grande ideia e a sua execução é a escolha das pessoas”; “A democracia, tal como o peixe, apodrece pela cabeça”; “A um jovem não se diz: não vás para a política; vai e tenta mudar!”

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