Caros e caras ou caras e caros faialenses

\\\ NA MINHA OPINIÃO… | SOUTO GONÇALVES

QUI. 15 OUT. 2020 | Estava, há bocadinho, a ver uma aula de matemática na televisão. A professora dirigiu-se ao tele auditório dizendo: meninos e meninas! Instantaneamente interroguei-me a mim próprio: e se estão apenas rapazes a ver televisão; ou só raparigas?

A pergunta veio-me à cabeça porque há poucos dias assisti a uma candidata a deputada a tratar os seus conterrâneos de uma forma que, no contexto em que ocorreu, me pareceu risível. Não foi o caso, mas, a título de exemplo, tomemos os naturais e habitantes do Faial para recordar o que se passou. Dirigindo-se aos seus potenciais eleitores a candidata disse: faialenses e faialenses, querendo abranger os homens e as mulheres, não se apercebendo, porém, a tempo que, do ponto de vista gramatical, esta palavra é um substantivo e adjetivo de dois géneros.

Eu, pessoalmente, não tenho qualquer peso na consciência por ter discriminado, por “pensamentos, palavras, atos e omissões”, o género diferente do meu e estou firmemente convicto que, no que toca igualdade de género, o que conta é a atitude. Não sinto, portanto, necessidade de usar verniz para fazer sobressair os princípios que defendo.

Ao reler as palavras acima escritas refleti sobre se, como já disse, não estaria, apesar de acusar os outros, eu próprio a ser ridículo. Fui aos meus arquivos pessoais, para ver se já tinha abordado esta problemática e, realmente, encontrei um texto sobre o assunto, publicado no Facebook no dia 30 de agosto do ano passado. Ei-lo:

Numa altura em que a questão da ideologia de género está na ordem do dia e paira muita falta de informação sobre o assunto, não seria avisado, pedagógico e económico do ponto de vista da abreviação do discurso, voltar-se ao cumprimento estrito das regras gramaticais da Língua Portuguesa e dizer, somente, os cidadãos, em vez de as cidadãs e as cidadãos ou os cidadãos e as cidadãs; os portugueses, em vez de as portuguesas e os portugueses ou os portugueses e as portuguesas; os açorianos, em vez de as açorianas e os açorianos ou os açorianos e as açorianas; os faialenses, em vez de as faialenses e os faialenses ou os faialenses e as faialenses?

Tenho que reconhecer a minha falta de informação sobre a matéria, por culpa própria, mas também é verdade que a questão não é fácil!

Sou pela simplificação e com ela pelo respeito absoluto pela identidade de género de cada um (ou uma), que a própria gramática acautela, ensinando que prevalece o género masculino quando nos referimos em simultâneo a este e ao feminino. Mas admito que se alterem as regras e passe a ser o feminino a predominar. Aliás, não conheço o fundamento científico que levou os linguistas a criarem a regra referida, mas presumo que tenha resultado do domínio do masculino sobre o feminino no tempo em que a gramática foi elaborada.

O que me parece fastidioso e desnecessário é repetir as palavras apenas mudando o artigo e a terminação, como se isso resolvesse as questões fundamentais, que são o reconhecimento de direitos e a mudança de mentalidade e de comportamento no sentido da aceitação do outro (ou outra) como ele (ou ela, ou até ambos num só) é.

Por mim, mantínhamos a elegância da velha expressão «minhas senhoras e meu senhores», arreigada na nossa tradição e de resto os faialenses, os açorianos, os portugueses, ou seja, os cidadãos em geral seriam tratados desta forma simples, despretensiosa, cordata e natural como merecem.

Visto que a exceção confirma a regra deixaríamos para momentos especiais e singulares o tratamento distintivo (por exemplo meus caros e minhas caras) ou afetuoso (meus amigos e minhas amigas). Então sim, a valorização das diferenças de género não cairia em saco roto, ou no ridículo, como por vezes acontece ou parece.

Subsiste, porém, o problema que vai para além do simples masculino e feminino. Mas por esse caminho, por agora, não sigo, pois poderia cometer a imprudência de falar sobre o que não tenho o devido esclarecimento.

P.S. Matemática e gramática nunca foram o meu forte, mas sei que há línguas em que existe o género neutro, que não é o caso da Língua Portuguesa. Mas até isso não resolve a querela, uma vez que, creio eu, a identidade de género não se restringe apenas a três alternativas.

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