A primeira figura da Autonomia

LUÍS GARCIA, PRESIDENTE DA ASSEMBLEIA LEGISLATIVA DA REGIÃO AUTÓNOMA DOS AÇORES [FOTOGRAFIA: DIREITOS RESERVADOS]

NO MEU ENTENDER…

“Eles lá dentro tratam-se como cães furiosos, mas depois vêmo-los aos abraços nos corredores!” É muito comum ouvir-se esta frase depreciativa sobre o comportamento dos políticos e dos deputados em particular. Independentemente de certos exageros de linguagem na luta política ou da hipocrisia de algumas atitudes fora do palco, existe, na verdade, na atividade política cá do burgo, a todos os níveis, uma geral urbanidade e uma convivência salutar, fruto dos nossos ancestrais bons costumes e resultado do amadurecimento do regime democrático em que vivemos.

Por mim, sempre encarei, na profissão, na política ou na relação pessoal, o confronto, dentro dos limites da ética, como um estímulo e um meio saudável de atingir objetivos, pois a apatia e o conformismo a nada conduzem, embora reconheça que a paciência é uma nobre virtude, que tenho pena de não ser capaz de exercitar.

Por outro lado tive a felicidade de nunca me ter deixado contaminar pelo rancor, exemplo que minha mãe me deixou. Ou seja: nada melhor do que, depois de uma acalorada discussão, voltar-se à normalidade de uma relação cordial.

Queixar-se-ão, todavia, os meus mais próximos por eu, desde cedo, ter encarnado o espírito deixado por António Aleixo nesta quadra: Contigo em contradição / Pode estar um grande amigo / Duvida mais dos que estão / Sempre de acordo contigo.

O confronto e a luta políticas porém não existem, apenas, entre partidos diferentes ou ideologias opostas, ou mesmo visões estratégicas que não convergem. Se a isto se juntar aspectos de natureza ou incompatibilidade pessoais as coisas pioram.

É por isso que assistimos, amiúde, a conflitos, quantas vezes insanáveis, no interior de grupos, de organizações e até de órgãos dirigentes da mesma instituição — autênticas guerras fratricidas.

Todavia, sempre pensei que auto-reprimir convicções e pontos de vista é bem pior do que gozar do recato do comodismo e do oportunismo.

Encontra-se hoje na Presidência da Assembleia Legislativa da Região Autónoma dos Açores um deputado com que me cruzei, no plano político, algumas vezes, ao longo de mais ou menos 20 anos.

Estivemos no mesmo partido, certas ocasiões do mesmo lado da barricada, mas noutras em discordância aberta.

Digo-o agora sem rebuço, porque já me expressei clara e tempestivamente sobre o assunto: a candidatura a deputado do militante do PSD Luís Garcia, nas últimas eleições, não foi a principal, nem razão decisiva para a minha desvinculação partidária, em agosto passado, mas contribuiu para tanto, por representar uma estratégia política e um modo de ação que combati, ingloriamente, dentro do PSD enquanto lá estive.

No rescaldo da sua eleição como primeira figura da Autonomia dos Açores, não envio daqui ao Luís Garcia a habitual congratulação, acompanhada da simpática expressão “tu mereces”, porque isso seria negar tudo o que penso sobre o desempenho de cargos políticos.

No rescaldo da sua eleição como primeira figura da Autonomia dos Açores, não envio daqui ao Luís Garcia a habitual congratulação, acompanhada da simpática expressão “tu mereces”, porque isso seria negar tudo o que penso sobre o desempenho de cargos políticos.

Também o resultado alcançado pelo PSD no Faial, para a qual o Luís Garcia contribuiu, não me leva a felicitá-lo, porque, para mim, não havendo derrotas merecidas — por mais que elas possam sentir-se na pele, como já me aconteceu —, as vitórias nunca poderão ser levadas à conta de um prémio. Umas e outras são, simplesmente, o resultado da avaliação democrática que a cada eleitor cabe fazer, com motivações, certamente, bem diversas.

Há, contudo, um dado que não posso negar: o objetivo do PSD do Faial foi alcançado e quem discordou do rumo seguido, como eu, não tem outra coisa a fazer senão aceitar a invalidade das suas teses.

Subsiste-me, depois ou apesar do panorama acima apresentado, uma certeza: o novo Presidente da Assembleia Legislativa dos Açores é um cidadão muito bem preparado politicamente, com capacidade para o desempenho cabal da função, no mais difícil quadro parlamentar que se compôs na história da Autonomia Político-Administrativa dos Açores, fundada em 1976. |X|

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