Otília Frayão. Fuga premeditada permanece no imaginário faialense, 70 anos depois

Edward Allcard (1914-2017) descreveu a fuga da jovem faialense no livro “Temptress Returns”: “Com lágrimas nos olhos e ar muito assustado” apareceu-lhe pela escotilha em alto-mar [fotografia: direito reservados]

Saiu alegadamente clandestina do porto da Horta a bordo do iate do navegador solitário Edward Allcard. O imaginário faialense mantém-se convencido da fuga premeditada da poetisa aventureira que morreu aos 93 anos

| TEXTO SOUTO GONÇALVES |

Permanecem por confirmar as circunstâncias que deram lugar à inopinada partida de Otília Frayão da ilha onde nasceu, o Faial, no auge da juventude, tinha apenas 23 anos de idade.

Edward Allcard zarpou de Nova Iorque a 24 de agosto de 1950, em solitário, no seu veleiro, “Temptress”.

Fez uma escala de três meses no porto da Horta, para reparações, de onde partiria no início do ano seguinte, rumo a Gibraltar, para descrever uma rota em sentido contrário àquela com que, no início da segunda metade da década de 50 do século passado, em 80 dias, ligara a península britânica situada no sul de Espanha à mais populosa cidade dos Estados Unidos da América.

Há poucas imagens de Otília Frayão. Nesta, que é das mais divulgadas, captada na mítica Casablanca, sobressai a sua beleza física [fotografia: direitos reservados]

No princípio de janeiro de 1951, Allcard, arquiteto naval, topógrafo marinho, iatista e autor, nascido no Sul de Inglaterra, retomou a viagem entre o Novo e o Velho Mundos, mas já não estava sozinho a bordo.

Segundo o seu próprio relato, em 1952, no livro “Temptress Returns”, dado à estampa em Londres, Otília surpreendeu-o ao leme, “com lágrimas nos olhos e ar muito assustada”, aparecendo-lhe pela escotilha, 24 horas depois de largar da Horta.

“No imaginário de quem hoje tem mais de 70 anos o que aconteceu com Otília Frayão foi uma fuga premeditada.”

Ora, esta suposta surpresa contrasta com a convicção que reina, ainda hoje, entre alguns dos poucos faialenses vivos contemporâneos dum episódio que escandalizou a sociedade faialense de então.

“No imaginário de quem hoje tem mais de 70 anos o que aconteceu com Otília Frayão foi uma fuga premeditada”, conclui uma personalidade atenta e estudiosa da história e cultura faialenses, pondo em causa a versão apresentada no livro de Allcard.

A mesma fonte diz que a imprensa local propositadamente se alheou do que veio a ser motivo de interesse dos meios de comunicação internacionais. Assim, contribuiu para adensar um manto de interrogações sobre o sucedido e ajudou a criar um tabu, alimentado pelo círculo local das relações próximas da protagonista, consentido pelo verniz da sociedade hortense, cuja pequenez terá ditado o seu ato irreverente.

Sobra um relato de uma amiga de Otília Frayão, ainda entre nós, que contradiz o navegador solitário. Na véspera do abandono da ilha a poetisa aventureira confidenciou-lhe que tudo estava previamente combinado com o inglês para que a fuga acontecesse. Tenho as minhas coisas prontas, terão sido palavras como estas que selaram a conversa de despedida.

Neste quadro, a ficção e o pendor romanesco inclinam-se, com naturalidade, aliás, para o lado do escritor, acrescenta a fonte citada. A realidade, todavia, por mais dura e inconveninente que seja ou pareça, ainda que heróica e irreverente, mostra-se diferente.

A tudo isto se pode acrescentar a improbabilidade de alguém se manter escondido, num barco de reduzidas dimensões, durante largas horas, em alto-mar.

Não obstante, Edward Allcard descreveu a suposta primeira visão da jovem faialense no livro “Temptress Returns” de forma realista: “Com lágrimas nos olhos e ar muito assustado como que apanhada numa armadilha e sem esperança. Tinha cabelos negros batidos pelo vento, um rosto belo, olhos grandes e castanhos, lábios carnudos, pequeno nariz e queixo redondo”.

O poema “Raízes” preanunciou o “desejo de partir/ e não voltar./ Este receio de ficar/ por não poder partir./ Esta brusca saudade/ daquilo que existe lá longe”.

O que Edward Allcard, afinal, fez, não foi mais do que dar asas ao sonho de uma jovem que, através da sua veia poética, não escondeu. O poema “Raízes” preanunciou o “desejo de partir/ e não voltar./ Este receio de ficar/ por não poder partir./ Esta brusca saudade/ daquilo que existe lá longe”.

A possibilidade, referida por Allcard no seu livro, de fazer desembarcar a improvável passageira na ilha de São Miguel deve, por causa do que está atrás descrito, ser vista como uma forma de desresponsabilização do iatista, que abona a favor da tese da cumplicidade de ambos.

Victor Rui Dores numa crónica publicada no jornal Tribuna das Ilhas em março de 2018 citando a obra “Temptress Returns” fala da “tremenda” decisão de Otília em deixar as ilhas para trás, o que, certamente convenceu e, quiçá, encantou o navegador inglês.

Professor, investigador, autor e animador cultural, Victor Rui Dores, que tem prestado um inestimável contributo ao conhecimento da nossa história e tradições, na crónica mencionada, atribui a atitude de Otília Frayão “a um ambiente familiar sufocante” e à insatisfação “com a vida cinzenta e
opressiva da ilha”.

Em contraponto com o que aconteceu com os jornais locais do tempo da fuga (O Telégrafo e o Correio da Horta), habilmente, ou nem tanto, alheios ao sucedido, conforme atrás escrito, os media internacionais tornaram-se numa espécie de catapulta para Otília Frayão realizar o que ambicionava, ou seja, “este querer doloroso…/ que salta, geme e se espalha/ por coisas nunca vividas” (poema “Raízes).

“A épica aventura da faialense seria amplamente noticiada em jornais e revistas de todos os quadrantes”, escreve Victor Rui Dores no “Tribuna”, acrescentando que “com a venda da história da sua viagem a um semanário britânico, Otília
resolveu os seus compromissos financeiros e passou a ser uma mulher independente, traçando o rumo da sua própria vida”, que a 27 de dezembro de 2020 terminou, em Espanha, não sem ter desposado um nobre inglês, oriundo do país de destino da façanha que empreendeu a partir do porto da Horta.

Nascida em 1927 no Faial, tinha um irmão, Mário Mesquita Frayão, que, curiosamente, faleceu pouco mais de dois meses antes do que ela e foi uma figura de prestígio no campo sociocultural da terra que Otília Frayão deixou e a que acabou por regressar três vezes, a última das quais em 1992. |X|

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