Rui Marques. Não há “assinatura” vulcânica nos últimos sismos ao largo do Faial

Rui Marques admitiu “estragos não severos, como fendas em casas e derrocadas”, se o epicentro do sismo do meio-dia se tivesse verificado mais próximo do Faial [fotografia: direitos reservados]

Os sismos que aconteceram nas últimas horas nas proximidades da ilha do Faial, bem como os eventos da crise ocorrida no mesmo local em 2019 — 2020, “todos eles têm sinal tectónico”

| TEXTO SOUTO GONÇALVES |

O presidente da direção do Centro de Informação e Vigilância Sismovulcânica dos Açores (CIVISA) confirmou, ao início da tarde de hoje, que, até ao momento, a atividade sísmica, verificada numa zona entre 30 e um pouco mais de 60 quilómetros a oeste e oés-noroeste da ilha do Faial, reveste-se de natureza tectónica.

Quer os eventos sísmicos da crise de 2019 — 2020, que se desenvolveu a cerca de 30 quilómetros dos Capelinhos, quer os registos de hoje, relativos a sismos corridos a pouco mais de 60 quilómetros a oés-noroeste da ilha do Faial, “todos eles têm sinal tectónico”, afirma Rui Marques.

Formado em geologia e especialista em vulcanologia e riscos geológicos, este professor da Universidade dos Açores afasta, com segurança, a possibilidade de ocorrência de qualquer fenómeno de natureza vulcânica na área em causa, pelo menos como consequência dos fenómenos sísmicos detetados nos últimos tempos.

Rui Marques lembra, no entanto, que comportamentos tectóncios na crosta terrestre podem evoluir e dar lugar a vulcões — “vivemos numa região de vulcões ativos”, sublinhou —, mas uma ilha nunca se formaria com apenas uma erupção, teria que ser resultado de um conjunto significativo de manifestações do género, a partir de bolsas magmáticas cuja rutura promovesse a ascensão da respetiva matéria.

Interrogado sobre se não seria possível fazer a prospeção dessas bolsas, reiterou que, no caso em apreço, a “assinatura” do fenómeno em curso é claramente tectónica, “sem exceções”, insistindo que não existe uma relação de causa/efeito que possa fazer supor o surgimento de uma situação diferente da que está sendo observada.

Recorde-se que há um ano, Victor Hugo Forjaz, consagrado especialista na matéria, tinha aventado a formação de uma ilha na zona em referência, mas num horizonte temporal muito dilatado.

O que é certo é que o sismo das 11h47 de hoje recordou, mais uma vez, que estamos perante um caso de atividade sísmica recorrente. Volta e meia o Faial é despertado com abalos de terra ali originados, sem contar com as centenas que acontecem sem que a população dê por nada.

O responsável pelo CIVISA admitiu “estragos não severos, como fendas em casas e derrocadas”, se o epicentro do sismo do meio-dia de hoje se tivesse localizado à distância de 30 quilómetros do Capelo, onde se observou a maioria dos eventos da crise de 2019 — 2020. Felizmente foi o dobro da distância.

O MESMO SISMO, VALORES DIFERENTES

Sobre a determinação dos efeitos dos sismos, medidos pela escala de Mercalli Modificada e colocado perante a discrepância que por vezes existe entre a informação oficial e o que diz o vulgo, Rui Marques adiantou que, por exemplo, em sismos registados com a mesma magnitude (libertação de energia medida no epicentro), se obtém valores diferentes de intensidade (efeito no terreno) conforme o inquérito à população seja feito de dia ou de noite. “À noite as pessoas estão em casa, sentadas ou deitadas e sentem melhor”, explicou este especialista.

O sismo do meio-dia de hoje foi sentido em quatro ilhas, com maior intensidade no Faial, mas até na Terceira, de forma evidente, pois atingiu o grau III (Mercalli) naquela ilha.

Posto perante a possibilidade de haver alguma razão para além da magnitude do sismo que explique o facto de ter sido sentido tão longe, Rui Marques descartou essa possibilidade, atribuindo apenas à energia libertada as consequências do evento. “A energia propaga-se de forma radial, concêntrica, como quando atiramos uma pedra ao lago e se formam ondas”, exemplificou.

Quem olha para o mapa pensa que o sismo deveria ter sido também bem sentido na Graciosa, o que não aconteceu. Confrontado com esta constatação, o presidente da direção do Centro de Informação e Vigilância Sismovulcânica dos Açores (CIVISA) deu a seguinte explicação: existe uma imensidade de estruturas tectónicas que podem influenciar a propagação das ondas libertadas por um sismo e condicionar a sua intensidade. |X|

Sismo. Ilhas do Faial, Pico, São Jorge e Terceira sentem abalo

Pouco antes do meio-dia de hoje, eram 11h47 nos Açores, toda a ilha do Faial se sobressaltou com um sismo que também foi sentido em mais três ilhas

| TEXTO SOUTO GONÇALVES |

Os frequentadores da rede social Facebook, logo após o abalo de terra, começaram a revelar que se tratava de um evento sísmico que passou despercebido a poucas pessoas.

O sismo foi sentido em toda a ilha do Faial. Pico e São Jorge deram, igualmente, sinal de que as ondas de choque por lá passaram e até na ilha Terceira houve quem sentisse a terra termer a essa hora.

De facto, segundo o CIVISA (Centro de Informação e Vigilância Sismovulcânica dos Açores), o evento atingiu a magnitude 5,4 da escala de Richter e teve o seu epicentro a cerca de 67 km a oés-noroeste do Capelo, na ilha do Faial.

A zona epicentral onde ocorreu o evento sísmico é caracterizada por uma frequente instabilidade de natureza tectónica, registada numa área que chega a distar apenas 30 ou menos quilómetros do Faial.

Por volta das três horas da madrugada foi registado um pequeno sismo, de grau 2 (Richter), precisamente a meio caminho entre a ponta dos Capelinhos e o epicentro do sismo grande das 11h47.

Ontem e anteontem começou a verificar-se alguma atividade na zona, com cinco pequenos sismos e hoje depois das 11h47 e até às 14h47 (hora da redação deste texto) o Instituto Português do Mar e da Atmosfera já publicou na sua página da internet o resgisto de mais 13 ocorrências, a maior das quais atingiu o grau 4,0 (Richter) às 12h32.

Trata-se de uma situação normal, uma vez que após um sismo maior acontecem, em regra, réplicas com menor magnitude.

Abalo sentido nos três concelhos do Pico, Velas de São Jorge e nos dois concelhos da ilha Terceira

Segundo o CIVISA o sismo das 11h47 foi sentido com intensidade máxima IV/V (Escala de Mercalli Modificada) nas freguesias do Capelo, Castelo Branco, Praia do Norte e Feteira.

Com grau IV, ainda no Faial, foi sentido nas freguesias dos Cedros, Salão, Ribeirinha, Pedro Miguel, Praia do Almoxarife, Flamengos, Angústias, Matriz e Conceição.

No Pico foi registado o grau III/IV nas freguesias da Madalena, São Mateus, São Caetano, Criação Velha, Candelária, São Roque, Santo António, Santa Luzia, Prainha, São João, Lajes e Ribeiras.

Ainda grau III/IV nas freguesias dos Rosais, Velas e Manadas, da ilha de São Jorge e grau III na Calheta e Ribeira Seca de São Jorge e em São Mateus, Sé e São Bento, no concelho de Angra do Heroísmo e Vila Nova e Santa Cruz, no concelho da Praia do Vitória. |X|