Entrevista. “Falta muito” para a Espalamaca navegar

Talvez nenhum faialense nem picoense perdeu a oportunidade de realizar uma viagem na Espalamaca no longo do tempo em que cruzou, no esplendor do verão ou nas agruras do inverno, as escassas, mas quantas vezes intermináveis, cinco milhas que unem — e também separam — a Horta e a Madalena. Por causa desta identificação singular dos habitantes do Faial e do Pico com a “rainha” da ELP, extinta Empresa das Lanchas do Pico, muito se têm esforçado os “Amigos do Canal”. Querem fazê-la reviver!

O presidente da direção da Associação dos Amigos do Canal, de que fazem parte membros das suas duas margens, foi entrevistado por ESCREVI.BOLG. O ponto de partida da “teleconversa” resumiu-se à simples pergunta: onde está a Espalamaca?

Objetivo? Fazer o ponto da situação da recuperação da lancha, daí que o “onde está” se reveste de um claro subentendido, ou seja, saber em que ponto se encontra todo o processo de resgate da mais amada embarcação que nos últimos 100 anos sulcou este mar, extensão da própria existência da gente destas ilhas.

Pior do que escutar quais as dificuldades que os “Amigos do Canal” sentem, como que enfrentando vagas alterosas a meia broa, é perceber o sinal preocupante dado por Manuel Tomás: “Começo a ter falta de paciência, mas vou aguentando.”

Os mestres Simão, Feijó, Medeiros e os outros, salvo Manuel Humberto, que não tremeram no desafio diário de fazer correr a seiva do cordão umbilical que prende os portos dos dois lados do Canal, ao mesmo tempo, de partida e de regresso, já não se encontram por aí.

Será que o picaroto Manuel Tomás e companheiros conseguem manter-se agarrados ao leme?

Manuel Tomás: “O futuro que queremos é o da navegabilidade da lancha” fotografia de Sara Leal

— Onde está a Espalamaca neste preciso momento?

— A Espalamaca está num estaleiro de Santo Amaro à espera de navegar outra vez, se houver mais vontades para que tal aconteça, pois apenas a vontade da Associação dos Amigos do Canal (AAC) não chega para a levar a bom porto.

— O que é que falta para que o processo de recuperação fique totalmente concluído?

— Falta muito. Falta obter a autorização da autoridade marítima para o efeito e alguma burocracia tem impedido uma rápida viagem até ao momento de se avançar mais rapidamente, em especial com a motorização, apesar de já termos os motores disponíveis.

Várias vozes pediram o regresso da Espalamaca.

Não andará muito longe da verdade quem disser que a ideia de dar uma nova vida à Espalamaca foi ótima, mas já peca pela demora. Qual a razão da delonga?

— A ideia já vinha a ser apresentada há muitos anos. Desde os escritos que abundaram sobre o caso, até a alguma, embora tímida no acompanhamento, intervenção política do CDS, várias vozes pediram o regresso da Espalamaca. Sobretudo depois do Governo ter decidido recuperar a parte de carpintaria da lancha. Então entrou em acção a AAC, em 2016, e tomou a seu cargo, devidamente autorizada pelo Presidente do Governo Regional, a tarefa de levar a Espalamaca para o mar e não deixar que ficasse apenas em cima do cais da Madalena.

— E as demoras começaram aí.

— O que podia parecer rápido foi muito demorado. A procura de motores até foi célere, mas a concretização da oferta dos mesmos pela Marinha Portuguesa demorou quase um ano e a assinatura de protocolo ainda mais, mas o que mais complicou foi a fraca ajuda da Direcção Regional da Cultura no processo. Seria fastidioso estar a focar todos os pormenores de um calendário demasiado longo, mas sempre direi que a burocracia demorou, desde 2016 até 2021, e tudo impossibilitando o podermos iniciar o processo de legalização junto da Direcção Geral dos Recursos Marítimos. Ainda nos falta um documento para avançar.

— Quem corre por gosto não cansa, mas a situação descrita parece desgastante.

— Em termos pessoais começo a ter falta de paciência, mas vou aguentando. O mesmo se passa com os meus colegas da AAC. Apesar de tudo isto, alguma coisa fomos fazendo, graças às ajudas anónimas de uma Família Faialense e de outra Micaelense, bem como de um grupo de emigrantes, norteados por Hélder Lemos, nomeadamente a construção dos tanques, das mangas e dos veios. Mas falta tanta coisa… Não esquecemos a ajuda preciosa do Capitão do Porto da Horta,  Comandante Rafael Silva, na cedência dos motores do salva-vidas e na orientação oferecida.

— Hoje, no estado em que estão as coisas, é possível saber qual o futuro desta emblemática embarcação?

O futuro que queremos é o da navegabilidade da lancha. O que vai acontecer, infelizmente, ainda estamos longe de o saber. O que pretendemos é que, sendo a Espalamaca propriedade do Museu do Pico, a mesma navegue entre Maio e Setembro, em actividades culturais e turísticas em íntima ligação com as autarquias do triângulo, e nos restantes meses esteja visitável no Museu da Construção Naval de Santo Amaro, conforme foi acordado com o Presidente do Governo.

A Câmara Municipal da Madalena tem a intenção de criar a Casa das Memórias do Canal, mas de mandato em mandato vai continuando no campo das intenções.

— Quando se fala do património marítimo associado ao Canal, recorda-se, de imediato, a “Calheta”, a “Velas”, os “barcos do Pico”. Há um inventário dessas “peças” que fazem parte da nossa memória e da nossa história?

Que saibamos, tudo, ou quase tudo, estará por fazer. A Câmara Municipal da Madalena tem a intenção de criar a Casa das Memórias do Canal, mas de mandato em mandato vai continuando no campo das intenções. E é pena que o Governo não tenha tido uma atenção para este património como teve para o Baleeiro que salvaguardou de forma exemplar.

— Ainda existe alguma das embarcações referidas em condições tais que possa ser recuperada? Se sim, valerá a pena fazê-lo, tendo em conta que as vicissitudes associadas à recuperação da Espalamaca não auguram facilidades a esse empreendimento?

— Tudo se perdeu. Dá pena ver a degradação em que está a Calheta e o Adamastor, num cerrado da Câmara Municipal da Madalena. Também se perdeu o Terra Alta e os outros iates do Pico, bem como os barcos da Areia Larga e do Calhau. A AAC queria recuperar o Santo António do Monte.

DEFENDER O PATRIMÓNIO MARÍTIMO DO CANAL

A Associação dos Amigos do Canal (AAC) nasceu para recuperar a Espalamaca?

A Espalamaca foi a razão próxima da sua criação, mas a defesa do património marítimo do Canal a razão primeira.

“A Comunidade do Canal existe e devia ser muito mais activa do que é.”

— Falar do Canal leva-nos à expressão “Comunidade do Canal”. Como a define?

A Comunidade do Canal sempre existiu, desde que o Faial e o Pico são habitados e houve gente no Lugar dos Ilhéus. Não é por acaso que a Monarquia, no início do século XVIII, decretou que as duas ilhas valiam como uma só. Lembro-me de, com 10 anos , quando fui estudar para S.Miguel ter sido verificada a minha mala, para ver se levava contrabando. Aqui sempre navegámos livremente entre o Pico e o Faial. Foi Tomás Duarte quem criou a feliz expressão que hoje é tão real como antigamente, mesmo que alguns pensem ou queiram que não, mas não há volta a dar, a Comunidade do Canal existe e devia ser muito mais activa do que é.

— A AAC poderá ser um veículo de afirmação desse conceito e da sua instrumentalização (no sentido positivo)?

— A AAC é mais um forte laço de união da Comunidade do Canal. Apenas somos duas margens do mesmo Canal, mesmo que, às vezes, pareça mais inclinado para um dos lados, sinal de que as elites se esquecem do essencial. |X|

COVID-19. Faial sem casos novos

Fotografia de Esmeralda Rosa

Nos Açores há seis dezenas de indivíduos suspeitos de terem contraído o vírus da estirpe proveniente da Grã Bretanha

Souto Gonçalves texto

De acordo com a informação diária veiculada pela Autoridade de Saúde Regional (ASR) de ontem para hoje não foram registados novos casos da COVID-19 na ilha do Faial, onde se mantém um indivíduo internado no Hospital da Horta, fora da unidade de cuidados intensivos (UCI) e onde também continua ativa uma cadeia de transmissão, de que o doente internado não faz parte.

O concelho da Horta tem, presentemente, sete casos positivos ativos, distribuídos da seguinte forma: um nas Angústias, um em Castelo Branco, quatro na Matriz e um na Praia do Almoxarife.

Existem atualmente 207 casos positivos ativos nos Açores: 175 em São Miguel, 22 na Terceira, sete no Faial e três em São Jorge. Foram detetados até hoje 3.736 casos de infecção pelo novo coronavírus, verificando-se 27 óbitos e 3.399 recuperações.

VARIANTE BRITÂNICA DO NOVO CORONAVÍRUS

O Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge divulgou hoje o “relatório de situação sobre diversidade genética do novo coronavírus” no qual revela que foram diagnosticados dois casos da estirpe oriunda da Grã Bretanha nos Açores, cujas colheitas para análise ocorreram a 14 e a 17 de janeiro último nas ilhas Terceira e São Miguel.

Atualmente há a suspeita de que possam estar a ocorrer no arquipélago seis dezenas de casos da variante britânica. Recorde-se que o primeiro caso deste tipo foi detetado na ilha do Faial, há mais de um mês, numa pessoa vinda do exterior e que se revelou praticamente sempre assintomática.

No Telejornal de hoje a RTP-Açores avançou com a notícia de que todos os elementos da equipa de futebol feminino do Grupo Mocidade Praiense da ilha Graciosa, vencedora, pela segunda vez, do campeonato local, deverão ser testados depois de terem realizado uma festa comemorativa do feito sem respeito pelas normas de prevenção da pandemia.

Entretanto a Polícia de Segurança Pública informou ter encerrado no Faial dois estabelecimentos do sector da restauração e bebidas por prolongarem o horário de funcionamento para além das 22 horas e não respeitarem outros aspetos das restrições que visam travar a propagação da COVID-19. |X|

TELE_FOTO_MÓVEL

Não há Carnaval, já se sabe! Mas o espírito não se perdeu e a esperança é que para o ano todos recuperemos o tempo perdido.

Entretanto, a Câmara Municipal da Horta distribuiu pelas escolas do concelho uma estrutura de madeira em forma de palhaço convidando à imaginação.

Sobre estes palhaços foi vertida toda a criatividade latente entre alunos e professores e a ilha ficou mais risonha, como hoje se podia testemunhar na Praça da República.

Souto Gonçalves texto e fotografia

Saúde. Apoio psicológico telefónico

Não será, certamente, através de um aparelho como o que aparece na imagem, já bastante antigo, mas de outro modo, quiçá com um telemóvel, meio de comunicação em voga, é possível obter apoio psicológico da Linha Açores de esclarecimento Não Médico COVID-19.

Fotografia com direitos reservados

Este novo serviço, da iniciativa do governo regional, entrou hoje em funcionamento e está disponível, nos dias úteis, das 8h30 às 18h30.

Criada em março do ano passado para apoiar os cidadãos em questões de caráter não médico a linha telefónica em causa alarga, assim, o âmbito das consultas, abrangendo uma área importante numa altura em que os efeitos da pandemia também se farão sentir na saúde mental da população.

Uma nota à imprensa do executivo dos Açores explica que se trata de uma “intervenção psicológica à distância em crise e primeiros socorros psicológicos, encaminhando, sempre que necessário, os utentes para serviços especializados de saúde mental e outros que se justifique”.

O número é o 800 29 29 29. |X|

Souto Gonçalves texto