TRADIÇÃO. “Belamento!”

Uma tradição caída em desuso, em que o jogo não passava de uma brincadeira, que, no entanto, chegava a equivaler a uma competição a sério

Há uns anos, nesta altura, com a aproximação da Páscoa, era comum jogar-se ao “belamento”, ou “belamente”, ou, ainda, para ser rigoroso quanto os dicionários, “balamento”. Presentemente, se há quem jogue, não se nota. Talvez nas escolas ainda se encontre algum professor que estimule esta tradição. Caiu em desuso, como muitos outros costumes.

O “belamento”, que era comum no continente e nas ilhas, consistia numa disputa entre duas pessoas, que combinavam “dar belamento”, isto é, surpreender o adversário dizendo esta palavra de forma direta, normalmente apontando-lhe o dedo.

O “belamento” tanto podia ser “dado” uma vez em cada dia, ou duas ou até mais, como por exemplo de manhã e à noite, ou de manhã, ao meio-dia e à tarde ou noite.

Depois de iniciada a Quaresma e até à Semana Santa jogava-se ao “belamento”, combinando-se o dia em que começava e quando terminava, sempre antes do Domingo de Páscoa, talvez até antes da Sexta-Feira Santa, pois nesse dia o recolhimento era quase absoluto.


Jogar ao “belamento” implicava, para se obter vantagem (cada “belamento” conseguido contava um ponto), surpreender o concorrente, daí que a tática usada passava por algumas artimanhas, sobretudo conhecer e seguir os passos do outro, apanhá-lo de surpresa, contar com o conluio de alguém.


Jogar ao “belamento” implicava, para se obter vantagem (cada “belamento” conseguido contava um ponto), surpreender o concorrente, daí que a tática usada passava por algumas artimanhas, sobretudo conhecer e seguir os passos do outro, apanhá-lo de surpresa, contar com o conluio de alguém.

Não raramente as crianças obtinham a colaboração dos pais e familiares para pôr de pé tais estratagemas. Também pais e filhos, ou avós e netos concorriam entre si, quantas vezes com a tolerância dos mais velhos, que se punham a jeito para “levar belamento” e se deleitarem com o gáudio dos inocentes por conseguirem pontuar.

Mas havia disputas sérias também. E confrontos decididos nas últimas horas.

Quem ganhasse recebia o prémio previamente acordado: um pacote de amêndoas com açucar [na fotografia, com direitos reservados], normalmente 250 gramas, ou confeitos. Havia casos, porém, em que estavam em disputa um quilo ou dois, demonstrando bem como esta brincadeira por vezes assumia contornos de competição a sério, o que seria caso para dizer que ninguém quer perder nem sequer a… amêndoas!

|| SOUTO GONÇALVES texto

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