São João à porta

QUI. 23 JUN. 2022

SÃO JOÃO DA CALDEIRA | Como é tradição realiza-se a 23 e 24 de junho a romaria do São João da Caldeira, no Largo Jaime Melo [na fotografia, antiga, de Francisco Gonçalves]. O programa apresenta novidades: na sexta-feira, dia 24, feriado municipal, decorre uma romaria, com concentração, pelas 9 horas, junto à sede do município; às 10h30 inicia-se uma meia-maratona, com partida do Largo Jaime Melo e às 13 horas começa um concurso de cestas de São João. Após um longo interregno são retomadas as ligações de autocarro entre o Largo Duque de Ávila e Bolama e o Largo Jaime Melo: seis viagens de ida e volta de manhã, outras seis à tarde e três à noite: a primeira partida dá-se às 9 horas e o último regresso à cidade é à meia noite e meia hora do sábado, dia 25. Na quinta-feira, dia 23, Ruth Marlene é a atração musical, a partir das 22h30. A fogueira à meia-noite de quinta para sexta-feira, com oferta de caldo de peixe; chamarritas, filarmónicas, marchas, a missa do dia de São João (10h00) representam a parte tradicional do programa. |X| + AQUI

ARTIGO RELACIONADO: VIVA SÃO JOÃO! + AQUI

«Obviamente demito-o!»

A frase em título é do general Humberto Delgado, que foi candidato à Presidência da República, em 1958, em pleno Estado Novo (ditadura de Salazar), contra Américo Thomaz, o natural vencedor antecipado.

Numa conferência de imprensa, em Lisboa, perante a mudez dos jornalistas dos órgãos de informação portugueses, o correspondente da agência de notícias francesa AFP (France Press) ousou questionar o candidato sobre o que faria ao presidente do Conselho (primeiro-ministro), António de Oliveira Salazar, se ganhasse a eleição.

Embora existam várias versões, que apenas divergem no pormenor, mantendo a substância («Demito-o, é óbvio!»; «Demito-o, obviamente!»), a mais citada é «Obviamente demito-o!»

Lembrei-me disto por causa das declarações do ministro da Administração Interna que numa entrevista ao jornal Público ameaça demitir os responsáveis do SEF (Serviço de Estrangeiros e Fronteiras) se se repetirem problemas no Aeroporto de Lisboa, curiosamente denominado Aeroporto Humberto Delgado.

Só li o título da entrevista porque não sou assinante da edição online do Público, cujo acesso é reservado a subscritores. No entanto, a declaração de José Luís Carneiro não deixou de me impressionar negativamente.

Se há culpas a imputar, evidentemente que os responsáveis terão que arcar com as consequências, mas não me parece curial esta admoestação pública por parte de quem ocupa o topo da hierarquia e, em última análise, deve assumir a responsabilidades pelo desempenho dos serviços que tutela. Uma atitude de tal tipo perturba, com toda a certeza, o clima de confiança que tem que existir na cadeia de dependências num ministério e num serviço tão importantes como a Administração Interna e os Estrangeiros e Fronteiras.

Estou convencido que este puxão de orelhas público só fragiliza quem o deu e é um sinal de falta de autoridade. Uma demissão não se anuncia, ao contrário do que fez Humberto Delgado.

A atitude de Carneiro contrasta com a do “seu” chefe de Governo. Ainda agora António Costa riu nas televisões à pergunta se ia demitir, ou manter a confiança na ministra da Saúde, que está debaixo de fogo, como sabemos. Muitos de nós facilmente se lembrarão de Eduardo Cabrita, que Costa segurou no cargo contra tudo e contra todos.

As declarações do ministro da Administração Interna mostram que a classe política permanece imune à asneira, isto é, os políticos podem fazer o que fizerem porque nunca são responsabilizados; já os que se encontram sob a sua responsabilidade levam com a tábua no rabo quando é conveniente para salvar a pele de quem está por cima.

Em plena campanha eleitoral, Humberto Delgado tomou uma posição clara, firme e decidida, apontando o caminho alternativo que queria seguir, perante o seu principal adversário político, o que, em tudo, difere de José Luís Carneiro, que falou dos seus próprios subordinados.

Se António Costa tivesse a estaleca de Delgado poderia muito bem dizer: Está demitido, senhor ministro! |X|