Depois de algum tempo sem uma vice-presidência no órgão executivo de direção política do Partido na Região os sociais-democratas faialenses reconquistaram o lugar

O “DESENVOLVIMENTO HARMÓNICO” foi um dos instrumentos utilizados por Mota Amaral para tentar alcançar o desígnio da “unidade dos Açores”, ao qual precede a consagração constitucional da Autonomia, em 1976 e cujo fim é a própria unidade do Estado. A “repartição horizontal” dos órgãos de governo próprio visava dar corpo ao almejado desenvolvimento equilibrado da Região, mas, assentou numa malha menos fina quanto a ideia de um arquipélago unido politicamente fazia supor. Os velhos distritos mantiveram a preponderância e o sonho de uma Região una ainda hoje está por realizar. Entretanto, foi-se discutindo a Autonomia e adjetivando-a (progressiva, tranquila, multipolar, cooperativa e, agora, de corresponsabilização) ao sabor dos ciclos políticos e da imaginação de quem precisa refrescar a mensagem eleitoral. O discurso muda, à procura da concretização da muito flagelada união dos açorianos, mas a realidade encarrega-se de lançar pedras para o caminho.

No interior dos partidos persiste um esquema mental anacrónico e os resquícios dos ex-distritos ainda prevalecem. Repare-se, por exemplo, na constituição das listas para a Assembleia de República, onde Ponta Delgada, Angra do Heroísmo e Horta ditam as regras. São, assim, os próprios partidos políticos que mantêm as “ilhas pequenas” como um anátema, constituindo uma barreira ao desígnio autonómico da unidade.

Neste quadro, a presença, ou não, de militantes de São Miguel, Terceira e Faial em lugares de relevo nos órgãos de direção partidária dá azo a que se possa estar perante uma vitória ou uma derrota, uma conquista ou uma perda daqueles que continuam a fazer valer a sua hegemonia.

FIM DO JEJUM

Os sociais-democratas faialenses encontravam-se há algum tempo sem representante na Comissão Política Regional (CPR), que é o órgão executivo de direção política do PSD-Açores. A saída silenciosa da vice-presidente Cristina Abrantes deixou o Faial, provavelmente pela primeira vez, sem assento naquele órgão.

Cristina Abrantes ausentou-se sem bater com a porta e ninguém falou no assunto e por isso desconhece-se as razões do abandono. Entretanto, participou no 25.º Congresso do PSD-Açores, em Ponta Delgada, no fim de semana de 15, 16 e 17 de julho e é-lhe conhecida a vontade de exercer uma militância ativa, bem como a apetência pela intervenção comunitária, pois faz parte da administração do Hospital da Horta, já foi provedora da Santa Casa da Misericórdia da Horta e candidata a deputada regional e à Junta de Freguesia da Praia do Almoxarife.

O que terá ditado a demissão fica no segredo dos deuses e, francamente, é desnecessário perguntar porquê, pois, em casos semelhantes, a reação é politicamente correta deixando no ar mais interrogações do que respostas.

O Faial, ao longo da história do PSD-Açores, teve grande influência no seio da CPR. Basta lembrar o nome de Alberto Madruga da Costa. Ultimamente, a representação faialense tem sido pouco mais do que uma «austera, apagada e vil tristeza». O mandato de Carlos Ferreira, vice-presidente de Alexandre Gaudêncio, prova-o. Na polémica em torno do processo judicial envolvendo o presidente da Câmara Municipal da Ribeira Grande, Carlos Ferreira quis agradar a Deus e ao Diabo, demarcando-se e, ao mesmo tempo, manifestando-se leal ao dirigente partidário.

Portanto, a vice-presidência que cabe ao Faial não se tem mostrado uma mais-valia, o que deixa no ar a dúvida sobre até que ponto isso importa, pois o Partido obteve no concelho da Horta uma recente e significativa vitória autárquica, que não deixa também de ser importante no contexto regional.

Agora, no 25.º Congresso, Ilídia Quadrado quebra o jejum do PSD-Faial na CPR, ascendendo a uma vice-presidência, acompanhada por Isabel Dutra, que é vogal.

PROVÁVEL CANDIDATURA

Ilídia Quadrado tem uma longa ligação ao PSD, que se iniciou em 1997, quando fez parte da lista de candidatos à Câmara Municipal da Horta. De lá para cá já foi representante do Grupo do PSD na Assembleia Municipal da Horta e candidata, mais do que uma vez, à Junta de Freguesia do Capelo. Como candidata a deputada à Assembleia da República, ocupando a “quota” do Faial na lista do PSD pelo Círculo Eleitoral dos Açores, chegou ao parlamento nacional por substituição. Enquanto número 3 da lista que concorreu em 2022 à Assembleia da República ficou pelo caminho por causa da vitória, inesperada, do PS.

Professora do ensino secundário e simpatizante social-democrata, o apelo do Partido fê-la tornar-se militante recentemente, mantendo uma imagem do género “low profile”, isenta de polémicas, o que lhe tem granjeado reconhecimento público e uma ascensão política sustentada e confirmada no curto desempenho como deputada da República.

A sua provável candidatura à Comissão Política do Faial (CPI) e consequente liderança local do partido, para além de corroborar um percurso de disponibilidade para o serviço público, pode ter a seguinte leitura: o PSD, neste momento, é um deserto de liderança na ilha e Ilídia Quadrado um oásis.

Luís Garcia escutado por Mota Amaral no 25.º Congresso do PSD-Açores. Também José Manuel Bolieiro ouve o presidente do parlamento, que é um dos pilares em que se apoia | FOTOGRAFIA DO PSD-AÇORES

Muito próxima de Luís Garcia, a indicação de Ilídia Quadrado para a CPR não pode deixar de ter tido o beneplácito – senão a iniciativa – do presidente da Assembleia Legislativa, por sua vez um dos pilares em que se apoia o presidente do Governo Regional, José Manuel Bolieiro, para potenciar e aprofundar a dimensão institucional do PSD na Região.

Este faialense é, presentemente, uma voz escutada e respeitada, dentro do Partido e também nos Açores. Tem feito uma meticulosa e eficaz gestão do cargo de presidente do parlamento, aproveitando a oportunidade para se emancipar politicamente, saindo do limbo em que se encontrava por não ser capaz de ganhar eleições. Em pouco mais de um ano fez prova de vida, subsistindo a dúvida sobre se foi o hábito que fez o monge, ou se antes os analistas olhavam para a árvore e não viam a floresta.

PADRE JOSÉ

Luís Garcia, por outro lado, assume o “modus operandi” do PSD-Faial ao longo do tempo, assegurando a estabilidade da organização partidária, mas recorrendo ao papel de eminência parda. Entrou muito novo na atividade política, precisou de submeter-se aos “barões” para vingar e hoje é por ele que tudo passa; ou seja, aprendeu a lição! A sua juventude não impede e a sua personalidade favorece uma frieza e calculismo assinaláveis e é por causa de uma “chamada de atenção” que fez que Carlos Ferreira vai cumprir até ao fim (final do ano) o mandato de presidente da Comissão Política do Faial (CPI), pois o presidente da Câmara Municipal da Horta queria abandonar já as funções partidárias.

Não deixa, também por isso, de ser notória a ausência do líder local do partido no Congresso Regional, que o vereador Eduardo Pereira justificou no Facebook com compromissos municipais. Um desses compromissos terá sido fazer a 1.ª leitura da missa de encerramento da Festa de Nossa Senhora do Carmo, transmitida pela RTP.

Sempre que ocorreram crises no PSD do Faial quanto à falta de liderança, quem assumia funções regionais ficava, ainda que tacitamente, com a “obrigação” de se chegar à frente na estrutura partidária da ilha.

Luís Garcia é o número 2 do Conselho Regional, principal órgão do Partido entre congressos, logo a seguir a Joaquim Ponte, que deixou a presidência da Mesa do Congresso. Tem o menino nos braços. Cauteloso como sempre e como bom político que é antecipou os acontecimentos não dando ponto sem nó: “obrigou” Carlos Ferreira a manter-se na CPI, ficando com o tempo necessário para lançar Ilídia Quadrado e atualizar a figura do Padre José, em que o Cardeal de Richelieu depositaria infinita confiança. |X|

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