Quem diria melhor?

Não tive oportunidade de participar, na noite de ontem, na iniciativa da Associação de Turismo Sustentável do Faial, que decorreu na Biblioteca João José da Graça, sob a epígrafe «Faial: Descobrir a História, Pensar o Futuro». Mas, hoje de manhã, tomei conhecimento, através de uma nota de imprensa do Município, do discurso do senhor presidente da Câmara Municipal da Horta ali proferido.

O senhor presidente teve a inteligência política de aproveitar o momento para explicar convenientemente a problemática que envolve as obras da frente mar em face das reações que publicamente têm ocorrido após a descoberta da muralha da antiga Rua do Mar.

Em vez de se fechar em copas, como muitas vezes acontece com quem detém o poder, o presidente Carlos Ferreira disse: “Não vou fingir que não há um elefante no meio da sala. Pelo contrário, vou abordar com frontalidade, transparência e literalmente sem taipais, a obra em curso na Frente Mar”.

Se esta atitude for para manter, então, não se tratava de uma falácia a promessa de mudança na gestão do Município.

Já vai sendo tempo de quem é eleito para nos representar e defender, perceber que governar às escondidas, ou apenas transmitindo para o exterior o que convém, não só não é sério, como também gera suspeitas que não abonam os governantes. O povo nunca foi estúpido, mas tem cada vez mais ao seu alcance ferramentas (tecnologias de informação e comunicação) para escrutinar os responsáveis pelas decisões que têm em vista (ou não) o bem coletivo.

Depois de pormenorizar alguns aspectos da obra da frente mar, o que não é habitual neste tipo de situações, iniciativa que eu saúdo vivamente, Carlos Ferreira disse-se «consciente da complexidade técnica do assunto, mas também com a noção do que importa preservar», informando que «o Município deu instruções para que junto do Projetista seja identificada a melhor solução para potenciar o elemento arqueológico [antiga muralha da Rua do Mar], devolvendo-o à Cidade e ao povo faialense».

Além disso – diz a nota informativa – reconheceu a importância do debate franco, responsável e plural, que em democracia é sinal de progresso e de evolução cívica e cultural, permitindo a expressão pública; a opinião fundamentada; e a vontade esclarecida, concluindo que «o Município não pode ser governado com base em meras opiniões de cada cidadão, pois tornar-se-ia ingovernável, mas pode, e deve, ouvir o contributo global e os técnicos da área, e tomar as decisões mais adequadas».

Quem diria melhor?

O problema é que estamos habituados a assistir a uma enorme “décalage” entre as palavras e os atos, no campo político, fazendo lembrar a pregação de frei Tomás!

Será este, insisto, um sinal de mudança?

Depois de todas as explicações, continua, no entanto, por esclarecer a razão pela qual a obra não está a ser acompanhada por um técnico de arqueologia.

Recordo o que escrevi num artigo anterior:

«Mais importante do que sabermos que a muralha está lá, é não sabermos o que ali pode esconder-se», segundo o historiador faialense Tiago Simões Silva, que já andou no local à procura de alguma coisa.

Conforme me explicou este jovem que se tem revelado um intrépido defensor da nossa memória coletiva, quem é que nos diz que não se poderá encontrar, por exemplo, vestígios arqueológicos deixados pelo intensíssimo movimento marítimo da nossa baía; ou partes das passagens entre a Rua do Mar e o areal, criadas pela dinâmica do porto; se calhar algum velho canhão ou até pedras das paredes dos monumentos em que a Horta foi rica? |x

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