UMA IMENSA TRISTEZA!

Como qualquer obra de vulto, também a Requalificação Urbana da Frente Mar da Cidade da Horta não esteve, nem está, isenta de polémica. Nestas coisas o consenso é difícil de obter e muito menos a unanimidade. O ditado “preso por ter cão e preso por não ter” assenta como uma luva neste género de situações. E o pior é que muitas discussões que se geram são provocadas por quem acordou tarde. Há sempre a corrente dos que dizem que é melhor estar quieto do que fazer asneira e a dos que acham que quem não arrisca não petisca. A verdade é que um projeto, por mais participado, debatido e explicado que seja, quando toma forma desperta, invariavelmente, reações: concordantes e discordantes.

Escrevi o parágrafo anterior numa notícia publicada hoje no meu blogue informativo FAIALGLOBAL.WORDPRESS.COM. Penso que estas palavras reproduzem bem o que se está a passar presentemente na nossa ilha, à medida que a Requalificação da Frente Mar avança. Os faialenses caíram em si quando começaram a assistir à reprodução no terreno do que estava desenhado no papel.

Lembro – tal como lembrei na notícia citada – que «a Requalificação Urbana da Frente Mar da Cidade da Horta, que começou no adro da igreja das Angústias, está ainda como a procissão que de lá não saiu, isto é, o tema continua a dar pano para mangas e, naturalmente, como atrás referido, padece do conflito latente e próprio dos empreendimentos que mexem com o estabelecido. Primeiro, foi o muro em frente à igreja de Nossa Senhora das Angústias que ganhou adeptos para o seu derrube e contou com apoiantes da sua manutenção. Seguiu-se o arranjo do espaço em frente ao Forte de Santa Cruz (atual pousada e antiga Estalagem) e o Parque de Estacionamento da Rua de São João, que também geraram “prós” e “contras”. Presentemente o pomo da discórdia é a “ressuscitada” muralha da Rua do Mar e o passeio “modernista” da Avenida Marginal.»

A questão mais premente neste momento é a seguinte: é possível e desejável voltar atrás, pelo menos nalguns aspetos do projeto em causa?

Temos que olhar, decididamente, para a frente e isso implica não entrar no jogo político-partidário de sacudir a água do capote e tentar imputar ao adversário todas as culpas.

Esta polémica tem dois aspectos muito positivos: mostra que os faialenses não estão alheados dos assuntos da sua terra e mostra, ainda que contraditoriamente, que precisam de exercer a sua cidadania de forma mais ativa aparecendo nos locais próprios para discutir os problemas.

Procurar culpados não serve de nada. O PS projetou e executou parte da obra, o PSD concordou enquanto partido da oposição. Discordou de alguns aspectos da operacionalização do empreendimento, mas deu o seu aval em sede de aprovação camarária. E nós, cidadãos, também temos a nossa quota de responsabilidade, pois acordámos manifestamente tarde, além de que os decisores políticos estão legitimados pelo voto que receberam, precisamente, dos eleitores faialenses. Mal ou bem, a democracia é assim, tal como nestes dias tem sido bem evidenciado pelas eleições brasileiras: concorde-se, ou não, com os resultados, o respeito pela maioria deve ser inquestionável. Portanto, aqui no nosso caso, se há culpados, o mal terá que ser distribuído pelas aldeias.

Vejo a camisa de forças em que a Câmara Municipal está metida. O seu presidente já lançou um aviso à navegação, que é o sintoma disso mesmo: «O Município não pode ser governado com base em meras opiniões de cada cidadão, pois tornar-se-ia ingovernável.»

Até que ponto a contestação que se mostra, sobretudo, nas redes sociais, corresponde ao sentimento da maioria dos faialenses? É, certamente, uma pergunta que gira na cabeça dos responsáveis municipais. Terá a maioria razão, ou é a minoria que está certa? Isto, para não falar na possibilidade de que as opiniões estejam divididas equitativamente.

Insisto: a resposta mais necessária neste momento é à seguinte pergunta: será possível e desejável voltar atrás, pelo menos nalguns aspetos do projeto em causa?

As possibilidades económicas e financeiras para reverter determinadas situações são determinantes e estão relacionadas com um aspecto decisivo: não pôr em causa o contributo das verbas oriundas da União Europeia, sem as quais as melhores intenções vão por água abaixo.

A necessidade de demolir, pelo menos em parte, o Parque de Estacionamento da Rua de São João veio agravar os problemas, reduzindo o espaço de manobra no que toca à gestão dos recursos económico-financeiros.

A conjuntura compõe-se para que os elencos camarários anteriores e próximos corram o risco de ficar na história por não terem sabido preservar e honrar os nossos maiores. É esse o resumo que faço e que aconselha a que, de futuro, se ponderem melhor decisões com a envergadura das que foram tomadas nos últimos anos.

Resta, infelizmente, um sentimento de enorme perda que acho que abrange grande parte dos faialenses que amam a sua terra. Falando, concretamente, das nossas calçadas, ladrilhos e passeios, é aí que deixamos, diariamente, a nossa “impressão”, quando os pisamos no dia-a-dia e são eles também que, de um a forma impressiva, transmitem a quem nos visita a idiossincrasia deste lugar.

Na noite de hoje, numa passeio pela cidade, desperto por tudo isto, baixei a cabeça para apreciar os nossos ladrilhos: revi a beleza dos desenhos, reli a mensagem de algumas gravuras, valorizei a arte dos seus autores e a mestria dos seus executores. E também corri o risco de torcer um pé, pois alguns estão em más condições. Mas, se os visse arrancados do chão que nos tem amparado ao longo da vida sentiria uma imensa tristeza! |x

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