Despovoamento do Triângulo dos Açores

Num ano em que se realizaram os Censos em Portugal é oportuno falar do assunto. O FREGUÊS publicará os dados relativos a cada uma das 41 freguesias do Triângulo dos Açores (TA), apresentando também os resultados por concelho, por ilha e no conjunto do próprio TA.

Embora o objetivo do FREGUÊS seja dar relevo noticioso às freguesias e aos fregueses, valorizando a sua importância, nesta publicação faz-se a comparação dos dados demográficos recolhidos nos Censos 2021 com uma informação publicada no jornal Correio da Horta de 27 de novembro de 1971 sobre as ilhas do Faial, Pico e São Jorge. |x|

Delinquência infantil na Horta

MEMÓRIA DA IMPRENSA

RAPAZIO | Na segunda-feira, 19 de novembro de 1962 (há 59 anos), o Correio da Horta, na sua rubrica diária, na página 2, denominada Dia a Dia, sob o título “Rapazio”, queixava-se de vandalismo na cidade da Horta, nos seguintes termos: “Anda por aí formando grupo, à escâncara, em pleno dia. Com o pretexto de esmolar, introduz-se nas propriedades (ou faz sua escalada organizada) e surripia quanto pode; doutras feitas sobe à Matriz, para surpreender e furtar os pombais. É gente de pouco mais de palmo e meio, mas que se reune já na sedução do vício e que reconhece um orientador ou chefe. Há que reprimir esta delinquência infantil, aplicando-lhe os meios de segurança prevista na Lei. É um mal que urge debelar, a fim de evitar consequências graves. Cure-se a ferida antes que transmude em chaga.”

FILHA DE ERMELINDO ÁVILA | Nestes tempos mais antigos os jornais locais mostravam preocupação, disso fazendo notícia, pela doença das pessoas, dando atenção, naturalmente, às que hoje se designariam como figuras públicas ou seus familiares. Foi o caso, há 59 anos, de uma filha do “sr. Ermelindo Machado Avila, funcionário administrativo do Município das Lajes do Pico”, que, nas Angústias, passava “incomodada de saúde” e se encontrava a frequentar o Magistério Primário. Tratava-se da “sr.ª D. Helena Maria Lopes Avila”.

ATROPELAMENTO | Relacionada com o Pico, este diário faialense publicava mais uma notícia, do atropelamento da “Sr.ª D. Maria da Piedade Simas, que deu entrada no Hospital da Santa Casa da Horta, em estado grave”, após ter sido colhida por uma camioneta no Arrife , concelho das Lajes do Pico, no dia anterior.

BACALHOEIROS | “A fim de reabastecerem de óleo e provisões, deram entrada no nosso porto os bacalhoeiros espanhois ‘Rio Narcea’ e ‘Rio Dobra’”, informava o Correio da Horta, a 19 de novembro de 1962. |X|

NOTA: As citações respeitam a ortografia da época. Provavelmente por falta de tipo (caracteres) nas tipografias algumas palavras não eram devidamente acentuadas.

Estudantes “apanhados” pelo vulcão

MEMÓRIA DA IMPRENSA

VULCÃO DOS CAPELINHOS | Na segunda-feira, 18 de novembro de 1957, há 64 anos, o Correio da Horta dava conta, ao alto da primeira página, da atividade do Vulcão dos Capelinhos. “A ‘ilhota’ atinge cerca de 70 metros de altura”, escrevia o jornal, para acrescentar que “centenas de pessoas têm atravessado o areal que liga a ‘ilhota’, aproximando-se da sua vertente”. No dia anterior “caíram cinzas, principalmente no Capelo e na Praia do Norte”, referia este diário faialense, falando das explosões da erupção que atingiram centenas de metros. As cinzas chegaram à cidade, notou o redator da notícia.

VICTOR HUGO FORJAZ | Também foi notícia de capa a passagem pelo Faial, integrado numa excursão de alunos do liceu de Ponta Delgada, o “prestante colaborador” do Correio da Horta Victor Hugo Lecoq Lacerda Forjaz, figura que hoje dispensa apresentações. A visita aconteceu “durante a demora do ‘Arnel’”. O jornal referiu-se detalhadamente ao programa da excursão e contou, com algum detalhe, a deslocação dos estudantes ao Vulcão dos Capelinhos. “O vulcão na sua frente mostrava-se com toda a sua grandeza bela e horrenda. Alguns não contiveram a sua curiosidade e lançaram-se na aventura de atravessarem o istmo da nova península e atingirem o bordo da cratera. Porém esta não foi escalada porque umas explosões mais fortes, acompanhadas de abundante queda de cinza e escórias incandescentes, puzeram termo à sua temerária ousadia. Os que ficaram plácidamente junto do Farol dos Capelinhos chegaram a recear a sorte dos seus colegas que haviam desaparecido sob uma nuvem negra. Foram protagonistas da aventura os micaelenses Alvaro França, Duval Gomes, Eduardo Cabido e Carlos Sebastião e os faialenses Henrique Barreiros, César Alberto Morais e Manuel Simas.” Também mereceu referência nesta notícia, por ter ido “ao sopé da montanha vulcânica”, a estudante faialense Aida Maria Lima, acompanhada da micaelense Isabel Conde Pinto Miranda. “Entretanto, o sr. Eng. Frederico Machado – lê-se ainda no texto –, junto ao Farol, elucidava alguns estudantes que não se cansavam de o interrogar sobre as diversas fases eruptivas do vulcão”.

VELHINHOS DO ASILO | Como é natural, nesta altura, o vulcão era um ponto de atração, por isso, o Correio da Horta noticiou que “foi proporcionado um passeio aos velhinhos do Asilo de Mendicidade à freguesia do Capelo”, precisamente para presenciarem aquele invulgar fenómeno.

VOLTA À ILHA EM BICICELTA | No dia 18 de novembro de 1957 o jornal reservou um espaço com destaque para noticiar a 2.ª Volta do Faial em Bicicleta que foi ganha em toda a linha por João de Freitas. O ciclista do Lusitânia arrecadou o 1.º lugar da classificação geral individual, foi o melhor trepador e fez parte, na classificação por equipas, do conjunto vencedor. Na “geral” o melhor faialense, Manuel Rodrigues (Fayal Sport), ficou em 2.º lugar, a 2 minutos e 56 segundos do ciclista ganhador, que tinha feito o percurso em 2 horas, 18 minutos e 35 segundos. Nos 2.º e 3.º postos das equipas ficaram o Fayal Sport Club e o Centro de Recreio Popular dos Flamengos.

NOTA: As citações respeitam a ortografia da época. Provavelmente por falta de tipo (caracteres) nas tipografias algumas palavras não eram devidamente acentuadas.

Sem Rei Nem Roque

MEMÓRIA DA IMPRENSA

PRESIDENTE DA CÂMARA MUNICIPAL NA CÂMARA CORPORATIVA | Em plena ditadura do Estado Novo e como Órgão da União Nacional no Distrito da Horta, o Correio da Horta noticiava, há 76 anos (em 1945), neste dia 16 de novembro, que foi uma sexta-feira, o seguinte: “Por unanimidade foi ontem eleito representante dos Municípios Açoreanos à Câmara Corporativa o Presidente da Câmara Municipal da Horta. Ao Ex.mo Sr. Tenente Manuel José Cardoso de Simas, dig.mo Presidente da Câmara, ‘Correio da Horta’ apresenta as suas felicitações.”

SEM REI NEM ROQUE | Quem se interessa, minimamente, por coisas do passado, da nossa história local, que a imprensa faialense, felizmente, registou para a posteridade, já ouviu falar, com toda a certeza, do grupo musical “Sem Rei Nem Roque”. Aliás, muitos faialenses, hoje com mais de 80 anos, ainda se recordarão, saudosamente, de tal agrupamento. Sob o pseudónimo “Andantino” (com o original ilegível, o nome poderá estar mal transcrito), o Correio da Horta publicou, a 16 de novembro de 1945, um artigo que considerava as bandas musicais “Sem Rei Nem Roque” e “Orquestra de Salão” (esta sem atividade na altura), “cada uma no seu género, as duas melhores orquestras dos Açores”. A opinião vinha a propósito da apresentação, marcada para o final do mês, no Amor da Pátria, “de uma nova modificação que decerto muito agradará a todos quantos apreciam a música de dança” interpretada pelo “Sem Rei Nem Roque”. O articulista recordava anos passados “em que apareceu, nesta ‘terra da coisa rara’, a mania do jazz, mania esta que foi a tal ponto de se criarem nesta cidade dois [grupos] (Oc Opus ic Labor Est e Alea Jacta Est) que, com a antiga Orquestra Simaria, abrilhantavam então os bailes da época”. Fazendo um pouco de história, “Andantino” lembrava que “se dizia na revista ‘Má Língua’ em 1927 [que] … resultou tremendo choque e então ficou ‘Sem Rei nem Roque’”. E rematava: “Não sabemos se foi resultado do choque, o que é certo é que os outros se extinguiram e o ‘Sem Rei Nem Roque’ singrou por mares encapelados até hoje, melhorando sempre consideravelmente”. Este colaborador, ou colaboradora, do Correio da Horta, neste seu escrito, fazia também uma comparação entre o “Sem Rei Nem Roque” que, claramente, apreciava por causa da sua música “melodiosa e agradável” e os grupos que denominava de “swings”, cujos “berros estridentes de trompetes ou apitos sibilantes dos clarinetes”, como se conclui, não lhe caíam bem no ouvido. |X|

NOTA: As citações respeitam a ortografia da época.

Iluminação do estádio da Alagoa

MEMÓRIA DA IMPRENSA

ILUMINAÇÃO DO ESTÁDIO DA ALAGOA | Neste dia 14 de novembro, mas em 1956 (há 65 anos), uma quarta-feira, foi iluminado pela primeira vez o estádio do Fayal Sport Club, onde, para o efeito, foram instalados alguns projetores. O Correio da Horta, que deu a notícia, informou também que a equipa de juniores dos “verdes da Alagoa” participaria no treino noturno.

PÁROCO DA PIEDADE | De passagem pelo Faial, o pároco da freguesia da Piedade do Pico, padre Francisco Vieira Soares, teve direito a referência na última página do jornal.

INGRID BERGMAN | Os anúncios, felizmente para a imprensa local da época, eram uma constante nas respetivas edições diárias. A 14 de novembro de 1956, o “Correio” fazia publicidade ao cinema no Teatro Faialense: “Estreia de uma super-produção de notável categoria, a mais grandiosa interpretação da inolvidável vedeta Ingrid Bergman na obra máxima de Roberto Rossellini Europa 51, o filme mais significativo do cinema italiano”. O jornal acrescentava que a película foi “estreada no S. Luiz de Lisboa com 3 semanas de exibições”. Entretanto, a afamada casa comercial Teófilo Ferreira Garcia, usando linguagem própria do “marketing”, assegurava que “o que é bom é caro”, para logo se seguida dizer que dava “facilidades de pagamento” a quem adquirisse um rádio da marca Buch, de que era agente geral para os Açores. Em rodapé, uma frase que ficou na mente de muitos faialenses que folheavam o jornal: “O cigarro ‘Triunfo’ satisfaz plenamente”. Hoje seria impensável publicar isto nas páginas da nossa imprensa!

NOTA: As citações respeitam a ortografia da época.

Comidas com o máximo asseio

MEMÓRIA DA IMPRENSA

PÓLVORA SECA | Neste dia 12 de novembro, há 90 anos (1931) uma quinta-feira, o jornal Correio da Horta, na rubrica Efemérides, na primeira página, recordava que, também neste mesmo 12 de novembro, mas de 1870, ou seja, há 151 anos, em “época da Guerra franco-prussiana, entrou na baia da Horta a fragata francesa Bellone, que ao passar pela fragata prussiana Arcone, que estava ancorada, desafiou-a com um tiro de pólvora sêca”. Seria caso para comentar: mero fogo de vista, apesar do conflito em curso.

PARADA ESCOLAR | Com um espírito bem mais pacífico, professores e alunos das Escolas Coronel Silva Leal, da Matriz da Horta e Capelo e Ivens, das Angústias, em número de três centenas, confraternizaram no “Campo de Foot Ball”, informa o mesmo jornal, a 12 de novembro de 1931, no centro da sua primeira página, reportando o acontecimento que na véspera ocorrera. Aqui ficam os nomes dos professores, que o diário refere, pois poderá existir alguém que ainda se lembre de alguns deles: A. P. de Faria, Teresa S. Freitas, Rosa S. Avelar, Maria do C. A. Nunes e Evarista L. da Silva (escola da Matriz), Jaime R. de Freitas, Evarista Z. de Faria e Filomena A. da Silveira (escola das Angústias). Eram 170 alunos da Matriz e 130 das Angústias, que “depois de realizarem uma interessante parada, recolheram alegremente ás respectivas escolas”.

PUBLICIDADE | Os anúncios dos comerciantes locais, hoje diríamos empresários locais, marcavam presença constante na imprensa da Horta antigamente. Exemplo: “A pensão familiar do Largo do Bispo, n.º 1, continua a fornecer comidas a toda a hora, e com o seu maximo asseio.” |X|

NOTA: As citações respeitam a ortografia da época.

Verão de São Martinho

MEMÓRIA DA IMPRENSA

VERÃO DE SÃO MARTINHO | No sábado, 11 de novembro de 1950 (há 71 anos), segundo o boletim meteorológico do Observatório Príncipe Alberto do Mónaco (Horta), citado pelo jornal Correio da Horta, o céu, na ilha do Faial, encontrava-se pouco nublado, o mar estava “chão”, o vento fraco, soprando de nor-nordeste, a humidade, com o vento daquele lado, era normal que não estivesse muito elevada (68%). Às 11 da manhã não havia qualquer registo de chuva nas 24 horas antecedentes. A temperatura situava-se (às 11 horas) em 16,7 graus e no dia anterior tinha atingido 17 graus (máxima) e 13,1 (mínima). O Dia de São Martinho foi, no ano de 1950, um dia de verão, pelo menos até à hora do almoço, visto que estes dados foram recolhidos pelas 11 horas. Portanto, o “verão de São Martinho” calhou mesmo no dia próprio. Não é difícil imaginar um dia destes, frio e seco, mas calmo, com o Pico e a Caldeira descobertos e as nossas paisagens a revelarem todo o seu brilho. Hoje não está assim…

MANUEL AUGUSTO SEQUEIRA | Talvez ainda a tempo de comemorar o São Martinho, porque “quase restabelecido de um ataque de gripe”, o “amigo” do Correio da Horta e funcionário dos C.T.T. Manuel Augusto de Sequeira foi alvo de notícia intitulada “Melhorando” na secção Dia a Dia.

CAFÉ VOLGA | Igualmente neste dia 11 de novembro de 1950 o jornal Correio da Horta publicava um anúncio de trespasse do hoje emblemático – que, certamente, na altura também já o era – Café Volga. Motivo? “O dono já não poder estar à frente do negócio”. |X|

NOTA: As citações respeitam a ortografia da época.

DESINTERESSE

Qualquer convocatória de uma assembleia geral de uma qualquer agremiação, nos dias de hoje, prevê que, perante a inexistência de “quorum”, os associados se possam reunir meia hora ou uma hora depois independentemente do número de presenças.

Isto já acontece há bastantes anos e tornou-se uma prática corrente, ao ponto de os estatutos das coletividades terem vindo a ser alterados, precisamente para acolher o procedimento em causa.

Como ninguém aparecia nas assembleias gerais e para evitar segundas convocatórias alguém teve a ideia e agora já é assumido que só aparece à hora marcada quem tem a chave da porta e aos (poucos) restantes basta comparecer passados os referidos 30 ou 60 minutos de dilação.

Trata-se de um sintoma dos tempos modernos, em que os cidadãos deixaram de se interessar pela vida das suas associações, por causa de outros apelos, em que o comodismo comanda.

Eu tinha a ideia de que esta ausência era uma coisa recente, mas, ao folhear a coleção do jornal Correio da Horta, apercebi-me que, já no recuado ano em que eu nasci, o desinteresse pela vida coletiva da nossa comunidade se fazia sentir. Ou, então, tratou-se de um caso esporádico.

Atente-se no fac-símile.