Acessibilidades. Rotas da Horta, Pico e Santa Maria estão estigmatizadas

As acessibilidades aéreas voltaram à ordem do dia. Empresários dizem que se o problema não for resolvido terá “um impacto brutal na economia” do Triângulo dos Açores

Depois de se reunir, na passada semana, com o presidente do governo regional e com “os grupos parlamentares de alguns dos partidos” com assento na assembleia regional, a direção da Associação de Turismo Sustentável do Faial (ATSF) veio a público tomar uma posição sobre as ligações às três “gateways” dos Açores (aeroportos da Horta [na fotografia], Pico e Santa Maria) abrangidas pelas obrigações de serviço público (OSP).

“A incapacidade para resolver este problema levará a custos económicos e sociais imensamente mais elevados do que a despesa que possa advir das OSP”, prevê a ATSF, referindo-se às ligações aéreas entre Lisboa e aquelas três ilhas, cuja operação não tem correspondido às reivindicações locais. Se a questão não for resolvida de maneira a melhorar a acessibilidade isso “terá um impacto brutal na economia das ilhas do Triângulo, comprometendo injustamente a sua capacidade de recuperação num período pós-pandemia”, conclui a associação.

A ATSF pretende “um debate aberto e transparente sobre as futuras” OSP que, após revisão, entrarão em 2022, segundo a própria associação e de acordo com informação que diz ter obtido do presidente do executivo regional.

As dúvidas que subsistem na opinião pública sobre a capacidade de a transportadora aérea açoriana continuar a assegurar o transporte para fora da região a partir destes três aeroportos estão a ser erradamente alimentadas por argumentos que se desviam dos “verdadeiros motivos pelos quais a SATA chegou ao seu estado financeiro atual”.

Na opinião da ATSF, tornada pública num comunicado à imprensa, há um “discurso” que tem o propósito de “desviar a atenção” e criar “a falsa ideia de que estas rotas não têm procura e que representam apenas um encargo desnecessário para a região e para a transportadora aérea”.

“O défice do conjunto das três rotas, de aproximadamente sete milhões anuais, está longe de explicar os prejuízos anuais da SATA, que em 2018 chegaram a atingir os 53 milhões de euros.”

Uma vez que existem mais rotas deficitárias a ATSF queixa-se da estigmatização injusta resultante de se tentar fazer pensar que só a Horta, Pico e Santa Maria prejudicam a companhia. “O défice do conjunto das três rotas, de aproximadamente sete milhões anuais, está longe de explicar os prejuízos anuais da SATA, que em 2018 chegaram a atingir os 53 milhões de euros”, assegura a direção da ATSF, presidida pelo empresário Pedro Rosa.

Esta jovem associação empresarial ligada ao turismo lembra que “os problemas das rotas do Triângulo não se encontram na atractibilidade nem nas taxas de ocupação, mas sim” nas OSP. Por essa razão a ATSF considera que “o problema das acessibilidades ao Triângulo pode e deve ser resolvido através da negociação de OSP adequadas e da criação de um modelo de transporte aéreo mais eficiente”, sugerindo que se encontrem formas de “aumentar os fluxos de transporte durante o verão, quando há mais procura e ao mesmo tempo compensar a companhia prestadora do serviço pelos custos acrescidos derivados da operação durante o inverno e das limitações operacionais das pistas”.

“O Triângulo é o maior sub-destino turístico dos Açores em superfície, o segundo em fluxo turístico e a sua procura esteve em permanente crescimento até ao início da pandemia.”

“O Triângulo é o maior sub-destino turístico dos Açores em superfície, o segundo em fluxo turístico e a sua procura esteve em permanente crescimento até ao início da pandemia”, recorda a ATSF, procurando demonstrar a importância desta zona do arquipélago no conjunto do destino Açores.

Da leitura do comunicado extrai-se que no encontro entre a ATSF e José Manuel Bolieiro, bem como com partidos políticos, houve concordâncias e consensos, sem que, porém, fosse discutida, ou, pelo menos, apresentada, qualquer medida concreta. |X|

SOUTO GONÇALVES texto | DIOGO DUARTE fotografia

Ocupação alta na ligação à Horta

Aeronave da Azores Airlines à saída do aeroporto da Horta, a 6 de setembro de 2016 fotografia de Souto Gonçalves


SOUTO GONÇALVES TEXTO

Em cinco dos 12 meses do ano de 2019 a taxa de ocupação da ligação aérea Lisboa — Horta — Lisboa foi superior à média desse ano, observa-se num gráfico publicado por Diogo Duarte na página do Facebook Aeroporto da Horta, da qual é administrador.

No mesmo gráfico só há dois meses, janeiro e fevereiro, que não atingem 70 por cento de ocupação.

Agosto ultrapassa 90 por cento, é o mês mais concorrido, enquanto fevereiro é o mais baixo, ainda assim acima de 60 por cento.

A taxa média de ocupação é de 80,2 por cento.

Diogo Duarte esclarece, neste “post” do Facebook os dados são do Serviço Regional de Estatística dos Açores (SREA) “partindo do pressuposto que em cada voo são disponibilizados 165 lugares”. |X|

Irra!

É lamentável que o discurso dos nossos representantes políticos continue a ser uma charada no que toca a alguns assuntos. A forma enviesada como nos falam merecia a pergunta que o célebre Obélix da banda desenhada fez, quando encontrou os romanos pela frente: Que tal Astérix, umas chapadinhas?

O caso do aeroporto da Horta é o melhor exemplo disto.

A velha história dos compadres que reciprocamente se elogiam, aqui tem um sentido invertido: só há dois partidos responsáveis por a pista ainda não ter sido aumentada, um partido é o meu, ora diga lá o meu compadre qual é o outro?

A questão das ligações aéreas do Faial e do Pico com o continente segue a mesma anedótica bitola.

Plantados na frente do televisor, inclinados sobre o rádio, folheando o jornal ou digitando no computador, estamos condenados a seguir o labirinto de palavras incompletas, expressões inacabadas e frases redondas acerca das histórias e respetivas versões que nos querem impor.

Já ninguém tem dúvidas de que a legião de assessores de imprensa e adjuntos dos governantes e deputados serve para ocultar informação. Ou melhor: desfazem-se em comunicados e “telefonemazinhos” quando a coisa corre de feição, mas ficam carrancudos quando a pergunta incomoda.

Porque o jornalismo existe para incomodar e o poder para ser conservado estamos perante um mal sem remédio.

Portanto, daí não há que esperar nada quanto a ficarmos esclarecidos.

Nos últimos tempos no Faial assistimos a uma inaudita proliferação de títeres que deixou a nossa terra gravemente ferida no seu orgulho. Não tivemos ninguém, no plano político, que nos defendesse com voz grossa, nem sequer o edil-mor, que costuma elevar os decibéis quando julga necessário.

Por mais que agora se esforce a anterior titular do cargo político mais alto dos Açores, passarão anos até que consiga branquear o seu total apagamento enquanto defensora desta terra.

Do outro lado da contenda temos alguém, agora no poder, incapaz de fazer valer os interesses do Faial.

Persiste a mensagem institucionalizada, blindada nas notas de imprensa, que, como diria o saudoso António Silva, “não adianta nem atrasa antes pelo contrário”.

O que a população do Faial agora quer do PSD não é a promessa de que “continuará, como o demonstrou ao longo dos anos, ao lado dos faialenses na defesa de melhores acessibilidades aéreas”. Não, não é isso.

O Faial quer, preto no branco, é saber se as acessibilidades aéreas a esta ilha, mais do que ficarem comprometidas, serão, efetivamente, melhoradas.

Não queremos artigos em orçamentos, que para percebê-los é preciso estudar gramática.

Como é que se pode compreender que esta preocupação, logo que levantada na sequência da apresentação do plano de reestruturação da SATA, não tenha tido uma resposta rápida e definitiva?

É difícil de aceitar que um deputado, Rui Martins, membro da coligação governamental, lance suspeitas sobre o futuro das “gateways” (incluindo, obviamente, a do Faial) e não haja quem explique, prontamente, que se trata de um não-assunto.

Afinal, digo eu, não há garantias nenhumas de que o Faial não perca o que tem!

Reafirmo, portanto, o que disse ao princípio: estamos fartos de frases sibilinas, expressões dúbias e palavras ocas.

Neste complexo mundo da aviação, em que é muito difícil entrar, torna-se cada vez mais necessário tirar um curso para poder entender o que nos querem transmitir. Ou talvez seja necessária uma especialização para descobrir o que nos querem esconder.

No meio de tudo isto, como diria a minha saudosa mãe, usando um dito de que nunca encontrei a origem, “caiu-me o estalecido” quando vi o maior responsável do PSD do Faial, para tentar acalmar os ânimos, socorrer-se de uma informação obtida por quem foi a mais alta figura do PS nos Açores.

Diz o povo e com razão que há alguém, em determinada situação, que é sempre o último a saber. Irra! |X|

SOUTO GONÇALVES