Estudantes “apanhados” pelo vulcão

MEMÓRIA DA IMPRENSA

VULCÃO DOS CAPELINHOS | Na segunda-feira, 18 de novembro de 1957, há 64 anos, o Correio da Horta dava conta, ao alto da primeira página, da atividade do Vulcão dos Capelinhos. “A ‘ilhota’ atinge cerca de 70 metros de altura”, escrevia o jornal, para acrescentar que “centenas de pessoas têm atravessado o areal que liga a ‘ilhota’, aproximando-se da sua vertente”. No dia anterior “caíram cinzas, principalmente no Capelo e na Praia do Norte”, referia este diário faialense, falando das explosões da erupção que atingiram centenas de metros. As cinzas chegaram à cidade, notou o redator da notícia.

VICTOR HUGO FORJAZ | Também foi notícia de capa a passagem pelo Faial, integrado numa excursão de alunos do liceu de Ponta Delgada, o “prestante colaborador” do Correio da Horta Victor Hugo Lecoq Lacerda Forjaz, figura que hoje dispensa apresentações. A visita aconteceu “durante a demora do ‘Arnel’”. O jornal referiu-se detalhadamente ao programa da excursão e contou, com algum detalhe, a deslocação dos estudantes ao Vulcão dos Capelinhos. “O vulcão na sua frente mostrava-se com toda a sua grandeza bela e horrenda. Alguns não contiveram a sua curiosidade e lançaram-se na aventura de atravessarem o istmo da nova península e atingirem o bordo da cratera. Porém esta não foi escalada porque umas explosões mais fortes, acompanhadas de abundante queda de cinza e escórias incandescentes, puzeram termo à sua temerária ousadia. Os que ficaram plácidamente junto do Farol dos Capelinhos chegaram a recear a sorte dos seus colegas que haviam desaparecido sob uma nuvem negra. Foram protagonistas da aventura os micaelenses Alvaro França, Duval Gomes, Eduardo Cabido e Carlos Sebastião e os faialenses Henrique Barreiros, César Alberto Morais e Manuel Simas.” Também mereceu referência nesta notícia, por ter ido “ao sopé da montanha vulcânica”, a estudante faialense Aida Maria Lima, acompanhada da micaelense Isabel Conde Pinto Miranda. “Entretanto, o sr. Eng. Frederico Machado – lê-se ainda no texto –, junto ao Farol, elucidava alguns estudantes que não se cansavam de o interrogar sobre as diversas fases eruptivas do vulcão”.

VELHINHOS DO ASILO | Como é natural, nesta altura, o vulcão era um ponto de atração, por isso, o Correio da Horta noticiou que “foi proporcionado um passeio aos velhinhos do Asilo de Mendicidade à freguesia do Capelo”, precisamente para presenciarem aquele invulgar fenómeno.

VOLTA À ILHA EM BICICELTA | No dia 18 de novembro de 1957 o jornal reservou um espaço com destaque para noticiar a 2.ª Volta do Faial em Bicicleta que foi ganha em toda a linha por João de Freitas. O ciclista do Lusitânia arrecadou o 1.º lugar da classificação geral individual, foi o melhor trepador e fez parte, na classificação por equipas, do conjunto vencedor. Na “geral” o melhor faialense, Manuel Rodrigues (Fayal Sport), ficou em 2.º lugar, a 2 minutos e 56 segundos do ciclista ganhador, que tinha feito o percurso em 2 horas, 18 minutos e 35 segundos. Nos 2.º e 3.º postos das equipas ficaram o Fayal Sport Club e o Centro de Recreio Popular dos Flamengos.

NOTA: As citações respeitam a ortografia da época. Provavelmente por falta de tipo (caracteres) nas tipografias algumas palavras não eram devidamente acentuadas.

O VESÚVIO E O ETNA DOS AÇORES

Muita água no fundo da Caldeira do Faial levanta questões sobre a natureza das nossas ilhas, em que os vulcões ditam as suas regras

A abundância de água no fundo da Caldeira do Faial, testemunhada e fotografada nos últimos dias por algumas pessoas que se deslocaram à borda da cratera do principal vulcão da ilha e que ESCREVI.BLOG referiu em publicações anteriores, tem dado lugar a alguns comentários, nomeadamente na rede social do Facebook.

A notícia remexeu na memória e, por exemplo, veio à baila um antigo vendedor do “peixinho da Caldeira”, chamado António Fialho, que José Jorge Garcia recordou, lembrando-o também como vendedor de “ice creams”.

Os episódios de vida são como peças de dominó. As recordações vão-se alinhando dentro da cabeça e quando a primeira cai, as outras, em catadupa, não param de nos devolver o passado.

Por isso, foram várias as lembranças que apareceram nas caixas de comentário do Facebook.

José Jorge Garcia, antigo tipógrafo do Correio da Horta, escreveu que a figura popular que ficou conhecida como “peixinho da Caldeira” respondia pelo nome de António Fialho, “nascido e criado junto às Bicas dos Flamengos, ao lado da sede da Filarmónica”, que, além de vender o “peixinho da Caldeira”, “percorria a cidade com o seu carro de gelados, que curava todas as doenças”.

A conversa virtual à volta deste assunto serviu para esclarecer que o “peixinho da Caldeira” não servia para consumo, pois a sua utilidade relacionava-se com a limpeza das cisternas: “Lembro-me de passar na minha casa um senhor a apregoar ‘peixinho da Caldeira’, mas não era para cozinhar, era para colocar nas cisternas, para limpar a água”, explicou a professora Conceição Duarte, corroborada pela faialense emigrada no Brasil, Conceição Flores, que acompanha pela Internet os acontecimentos sua terra. “O meu pai – sublinhou – costumava comprar ‘peixinhos da Caldeira’ para colocar na nossa cisterna a fim de manter a água limpa”.

José Castro acrescentou que o “peixinho da Caldeira” era “de dimensões pequenas, tipo carapau”. Este feteirense, a propósito de António Fialho, completou a informação de José Jorge Garcia, retomando “o pregão do gelado, ‘icecream americano!” José Castro assegura que ainda se lembra da chegada do vendedor ao Largo das Grotas aos domingos, pois “era uma folia”.

Outro faialense, há anos radicado no continente, entrou no desfiar de recordações para acrescentar que se recorda “perfeitamente desse Senhor do Flamengos que vendia, nas ruas da Cidade, não só os ‘peixinhos da Caldeira’ (de pequenas dimensões e sem fins culinários), como os ‘icecreams'”.

Eduardo Manuel Camacho puxou pela memória, pormenorizando que “os ‘peixinhos’, na maioria das vezes, eram para colocar nas cisternas, ou seja, nos reservatórios de águas pluviais das habitações que, em muitas situações, não tinham água canalizada (por exemplo: no Pasteleiro, no sentido da Feteira, até aos anos setenta, a água canalizada só chegava até à Canada dos Arrendamentos) e ainda em pequenos aquários”.

“Lembro-me de ter ido ao fundo da Caldeira, sendo que a última vez foi antes da erupção do Vulcão dos Capelinhos, salvo erro em junho desse ano, na expectativa de apanhar uns ‘peixinhos'”, contou Eduardo Camacho.

“BURACO” NA CALDEIRA

Outra questão levantada nas redes sociais sobre o tema da lagoa da Caldeira, foi a hipótese de o sismo de 23 de novembro de 1973 ter contribuído para a permeabilidade do fundo da cratera, como já acontecera em 1958 com erupção vulcânica dos Capelinhos.

“Dizia-se que o grande sismo de 23 de novembro, que destruiu grande parte das freguesias do Pico, tinha rompido ou rachado o fundo da Caldeira”, informou o picoense Albino Terra Garcia, entusiasta da observação de fenómenos naturais, acrescentando que se “falou de um ‘buraco’ que existiria na Caldeira através do qual a água era naturalmente drenada para o exterior”.

A ideia do ‘buraco’ disseminou-se entre a população e era frequente especular-se sobre o assunto.

Sobre estas possibilidades, o geólogo faialense Carlos Faria afirmou a ESCREVI.BLOG que não possui dados que as confirmem ou desmintam, mas adiantou que “o sismo de 1973 pode perfeitamente ter reaberto mais fissuras geradas em 1958, além de que, havendo falhas geológicas que atravessam a estrutura, estas possam ter sofrido deslocamentos, que por norma são acompanhados por fissuras associadas”.

“Não há nenhum buraco específico, a drenagem faz-se por infiltração vertical e escoamento radial das formações litológicas que formam o cone encimado pela Caldeira”, assegurou Carlos Faria. “Os furos nos Flamengos, Cedros, Pedro Miguel e Castelo Branco podem receber água que se infiltrou da Caldeira”, aventou o geólogo.

Interrogado sobre se o vulcão anterior ao dos Capelinhos, o do Cabeço do Fogo, em 1672, terá provocado alterações na Caldeira, Carlos Faria acha que “não é provável”. E explicou: “A última enorme erupção da Caldeira foi perto do tempo da fundação de Portugal, de lá para cá houve uma erupção que não pertence ao vulcão principal, que originou aquele cabeço lá em baixo, enquanto o vulcão da Praia do Norte foi em 1672, o que é muito pouco tempo para ter havido impermeabilização suficiente para grandes lagoas”

Carlos Faria lembrou que “a explosão de 1958 também não é do vulcão da Caldeira, é uma explosão freática pelo aquecimento de água subterrânea na sequência dos Capelinhos”.

Sabe-se que se o vulcão da Caldeira “rebentar”, usando uma expressão comum aos faialenses, as consequências serão significativas, nomeadamente para a segurança da população. Porém, Carlos Faria, numa atitude pedagógica e tranquilizadora, acentuou que “os vulcões dão sempre sinais de retoma e não vivemos no tempo de Pompeia, mas, nesta zona do arquipélago, este é o nosso Vesúvio e o Pico o nosso Etna, com erupções menos frequentes que o vulcão da Sicília”.

A terminar, o geólogo lembrou que os vulcões nos Açores são monitorizados. |X|

“No futuro teremos o fundo da Caldeira com uma grande lagoa”

Geólogo faialense Carlos Faria explica os fenómenos que ocorrem na Caldeira do Faial a propósito do aumento da quantidade de água que presentemente se verifica no fundo desta antiga cratera

“Se não houver grandes sismos, nem erupções na Caldeira e suas proximidades, no futuro teremos o seu fundo com uma grande lagoa”, segundo Carlos Faria, em declarações prestadas a ESCREVI.BLOG.

Fotografia de Carlos Pinheiro, obtida na segunda-feira, 8 de novembro

Fotografia de Helder Borges, terça-feira, 9 de novembro

A razão imediata para a Caldeira ter retido água como, provavelmente, nunca mais se viu depois da erupção do vulcão dos Capelinhos, a não ser já nesta semana, relaciona-se com as chuvadas que se abateram sobre o Faial nos últimos dias e, eventualmente, deve-se “à subida da água subterrânea nalgum aquífero subjacente pouco profundo”, adianta o geólogo.

Carlos Faria diz que estamos perante “uma evolução normal”. E explica: “Quando há uma erupção, a cratera de um vulcão ou a sua caldeira têm os fundos extremamente permeáveis, pois as explosões emitiram piroclastos que, se são ácidos designamos pedra-pomes, se são básicos são bagacinas, que são rochas granulosas que não retêm a água e muitas rochas anteriores sofrem fissuração deixando de ser impermeáveis.”

Entretanto, “com o passar do tempo tanto os piroclastos como as rochas fissuradas vão sofrendo alterações químicas e a circulação da água deposita sais que cimentam as primeiras e colmatam as fissuras e vão se tornando cada vez mais impermeáveis”, continua o geólogo.

Assim, “os fundos das crateras e caldeiras tendem a ter uma lagoa”. Como a Caldeira do Faial “é muito recente, tinha ainda poucas impermeabilizações e por isso só nalguns locais já havia condições para armazenar água à superfície”.

Carlos Faria recorda que “a última explosão foi na noite de 13 de maio de 1958, abrindo novas fissuras e reduzindo as lagoas, mas, com os anos, as fissuras vão sendo colmatadas e as lagoas tenderão a crescer”.

Enquanto isto, a abundância de água no fundo da Caldeira, documentada pelas fotografias de Carlos Pinheiro, captada a 8 de novembro e de Helder Borges, 9 de novembro, fez lembrar velhas estórias, quando o “peixinho da Caldeira” ali era apanhado e depois vendido pelas localidades da ilha.

Existem relatos que referem que um homem, salvo erro residente na freguesia dos Flamengos, se notabilizou na respetiva apanha, tendo ficado conhecido pela alcunha de “peixinho da Caldeira”. |X|